Quinta-feira, Novembro 12, 2009




Sem querer


Tenho insônia. Já perdi a conta de quantas noites passei assim. Eu, comigo mesmo, rodeado, às vezes perdido de mim. Passo o tempo, no melhor sentido passatempo da palavra. Invento idéias, repito coisas que esqueci, e ao procurar ilusória companhia, encontro contentamento verdadeiro – desses que ficam mesmo quando acabam. Tranquilo, ansioso, elétrico e preguiçoso. Não é que eu não tenho sono; apenas não dá para dormir.


Sou dois, três, na minha cabeça: mil. O que me espera, espero não saber. E faço questão que seja assim. Se eu desconheço o que será e quem serei, de nada adiantam as demais perguntas fundamentais. Quando? O quando é relativo e chega quando quer. (Acaba quando puder). Onde é sempre lá, e o porquê é porque sim. Aqui e porque não, são inércia e desperdício; respectivamente. De quantas chances precisamos? Quantas forem precisas. O tempo vai, mas não passa. Leva com ele as respostas, mas deixa as perguntas.


Quero aprender conhecendo, reconhecer aprendendo. A teoria e a prática, a forma e o conteúdo, inseparáveis como certas coisas. Por mais que se tente, sempre acabam juntas. Estas prosas com jeitão de poesia são, de tudo que falei até agora, a maior prova. Só experimentando para saber. O novo. É improvável haver no mundo exemplos repetidos. Se nem um segundo é igual ao primeiro, no máximo, dois momentos se assemelham. Sendo assim, são todos únicos. Somos todos. Bobagem pensar de outro modo e por isso agir de forma igual. ‘Experimento’ não soa tão importante à toa, penso. Pense. É só o começo, mas agora concluo, antes que o dia desfaça a noite. Sem querer... tenho insônia, insônia por viver.



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Segunda-feira, Novembro 09, 2009



Ar, doce ar.


Não é a toa que os cheiros são as lembranças mais fortes. Mais que imagens, sons etc. É como se a memória olfativa estivesse no coração de milhares de ligações nervosas. Basta acionar aquele mínimo ponto e um zilhão de coisas aparecem, de repente, na sua frente. Épocas, roupas, lugares, pessoas, e o mais importante: sensações. Experimente cheirar um CK One e feche os olhos. Imediatamente você estará de Levis 501 e new balance 1600, pronto pra matinê.


Outro dia me deparei com um action figure super moderno recém-saído da caixa, e logo aquele cheirinho de plástico novo fez renascer em mim toda a minha infância, transformando-o num simples bonequinho. Lembrei-me de tardes inteiras montando Lego, falando sozinho e imaginando mundos gigantescos que cabiam e sobravam na minha cama de solteiro. Senti a alegria descompromissada de quem tem como maior responsabilidade terminar a lição de casa. Se deu saudade? Ô.


Perfumes, sabonetes, cremes, xampus, todos podem estar facilmente associados a pessoas. É comum aquele perfume te lembrar alguém. Você pode até não identificar exatamente quem, mas a certeza de que você já sentiu aroma igual é impressionante. Seria como um Déjà vu de cheiros. E nesse caso, não deixa dúvida. Pior (ou melhor) do que os cosméticos que as pessoas usam, só mesmo os seus cheiros originais. Os tais feromônios, cada qual com seu cada qual. Deve ser por isso que o mesmo perfume possui uma mínima variação quando em outro corpo. Indelével variação. Você pode se esquecer dos traços daquela pessoa – o que mais cedo ou mais tarde, acontece – mas deixa só você sentir de novo aquele cheirinho que ficava na roupa amarrotada pra ver o que acontece.


Cheiro de tinta me lembra reforma, de incenso, meu pai, de gasolina, viagem, de carro novo, comemoração, de cigarro, balada, sabonete, banho e por aí vai. Cheiros acabam lembrando outros cheiros, e o emaranhado de lembranças emotivas, coloridas, fantásticas, envolve todos os cinco sentidos. Aliás, acho que os ultrapassa. Se existem o sexto ou sétimo, provavelmente têm a ver com essa coisa que invade a nossa mente sem pedir licença, mistura idéias sem cerimônia e nos faz sentir tanto e tão completamente que a gente nem entende o que de fato sente. Lembra? Tem tudo a ver com cheiros.

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

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Certas coisas


Deixou o carro no valet e saiu apressado, quase esquecendo de pegar o tíquete: “Ah, sim, obrigado.”. Entrando no local, passeou as mesas com os olhos, ansioso, e não encontrou o que procurava. “Estaria ela tão diferente assim?...” aí notou o mezanino e a escada que levava a ele. Venceu o último degrau, virou à direita e pode ver todo o primeiro corredor do andar de cima. Bem ao fundo, numa mesa de dois lugares, estava ela. Folheava o cardápio com delicadeza e dava rápidas olhadas para o andar de baixo. A lâmpada dicróica lhe dava um ar de conto de fadas. “Sim, ela não mudou nada.” Lentamente foi caminhando pelo corredor, passando mesa por mesa. Ela não demorou a notar o movimento e virou os olhos em sua direção. Ambos sorriram, abraçaram-se e sentaram-se:

- Pensei que não fosse te reconhecer.
- Você está diferente, isso sim. Eu tenho a mesma cara desde os cinco anos de idade. Lembra?
- Quanto te conheci, você tinha vinte.
- Não, tô falando da foto que...
- ... foto?
- Esquece, deixa.

Odiava situações constrangedoras. “De que foto ela tá falando?”. Decidiu compensar a memória falha de alguma forma:

- Garçom, por favor. Capiroska de lichia para a dama e um chope para mim.
- Não, não. Só uma tônica, com limão espremido no copo, por favor. – Assim que o garçom se afastou, - Parei de beber. Não vejo mais graça nisso.
- Ah, tudo bem.
- Mas me fala de você. O que tem feito?
- O de sempre. Trabalhando no escritório, jogando aquela bolinha quando dá. E você, continua no ramo de depilação?
- Mais ou menos. Agora sou designer de sobrancelhas.

Quase respondeu um sonoro “ãnh?!”, mas conteve-se a tempo: - Que legal. Parabéns.
- Obrigada. Tem sido difícil, mas estou me saindo bem.
- Tenho certeza disso.
- Tem certeza?
- Sim. Que você se sairia bem...
- Gozado, porque você nunca acreditou que eu poderia ser boa nisso.

Quase respondeu um sonoro “quê?!”, mas conteve-se a tempo: - Imagina... Bem, vamos pedir aquela picanha no réchaud. Uma boa né?
- Pode pedir. Mas eu vou de salada de palmito. Vegetariana.
- Entendo...
- E o coração, como anda?
- Tranquilo. O seu?
- Idem.
- Vamos lá na calçada fumar um cigarrinho? Ou você parou com cigarro?
- Ahã. Mas pode ir se você quiser. Eu te acompanho.

Foram. Na calçada, conversaram mais um pouco, deram umas risadas, voltaram para a mesa. Comeram a picanha e o palmito, pediram a conta. Na saída, esperando os carros, ficaram em silêncio. O dela chegou primeiro, ele abriu gentilmente a porta. Ela se sentou e olhou para fora. Ele, apoiado na janela. Olharam-se por trinta segundos que pareceram horas. Até o carro dele chegar... Minutos depois, voltando para casa, teve certeza: “É, ela não mudou nada”.



Quinta-feira, Outubro 15, 2009

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Sim

Não tinha jeito, não tinha casa, não tinha apego, não tinha namorada, não tinha problema, não tinha relógio, não tinha ciúmes, não tinha dor, não tinha gripe, não tinha alívio, não tinha afago, não tinha cama, não tinha calor, não tinha frio, não tinha doce, não tinha amargo, não tinha abraço, não tinha briga, não tinha bronca, não tinha grana, não tinha barba, não tinha cheiro, não tinha medo, não tinha pressa, não tinha dívida, não tinha credo, não tinha esperança, não tinha dedos, não tinha preço, não tinha sombra, não tinha dança, não tinha voz, não tinha paz, não tinha fome, não tinha porquê, não tinha solidão, não tinha remédio, não tinha chão, não tinha cura, não tinha bolo, não tinha bala, não tinha via, não tinha vaga, não tinha nada. E tinha tudo.



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Quarta-feira, Setembro 30, 2009

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Cadê


Meus óculos? Eu jurava que estavam aqui dentro. Foi aqui que eu deixei. Ou no carro, isso: no carro. Vai que eu esqueci no carro? Mas eu tava de carona. Aliás, será que eu estava mesmo com os óculos ontem? Bem, sol eu acho que fez... Se eu fui de carona ou não, sei lá. (Que droga de memória!). O que importa é conferir isso logo. Porcaria. Não está aqui. Se não está aqui, nem na mochila, o que eu fiz com meus óculos?!


- Você viu uns óculos escuros por aí?
- Como são?
- Meio retrô. Lente grande, marrom...
- Hm. Eu acho que já te vi com esses óculos. Combina bastante.
- Também acho.
- Como você arrumou eles?
- Cara, sabe que eu não sei direito. Foi um presente, do nada.
- Vacilou então. Porque se você soubesse, podia arrumar outro.
- Quem é você?
- E eu que sei?
- Vou achar esses óculos.
- Boa sorte, não vi nada por aqui não.

Lá vou eu de novo. Bem, paciência. Lembre-se de cada segundo dos últimos momentos com ele, é simples assim. Nossa, não consigo. Simplesmente eu não me lembro. O que é aquilo ali na janela? Não. Não são eles, são parecidos, mas não são eles.


Procuro em todos os lugares possíveis e impossíveis. Lugares que me lembram coisas e outros que não me lembram nada. Volto onde estava, corro pra frente, idem. Às vezes, nem procurando estou, e me deparo com lentes que me lembram eles. Experimento. Nada.

Fecho os olhos e estou de óculos, mas dessa vez não são escuros. Estou velho e uma foto antiga aparece em minhas mãos. Reconheço-me ali pelo sorriso, reconheço eles ali. Meus olhos. Mesmo sem vê-los, imagino-os nitidamente na memória inexistente. Estão sem brilho, meio retrô, marrons. Aonde eles foram parar?





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Segunda-feira, Agosto 24, 2009

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Bibliografia


Sofro de um mal terrível. Que me persegue, mesmo em sonho. Sou escritor ghost writter, e também me arrisco em alguns pseudônimos. Não por ser bom a ponto de me dividir em muitos; ao contrário. Penso que fingindo ser vários, posso crer finalmente que sou um. Sofro. Mas nem sempre foi assim.


Quando descobri que podia viver em casa, e que de casa escrevendo pelos outros, asseguraria meu presente: larguei tudo. Trabalho, carro, vida social. Enfim, a vida tranquila e caseira me trazia sobras em muitos aspectos, principalmente tempo. Ao lado dele, e sem pressa – com o perdão da redundância, terminei meu primeiro livro autoral; de contos. Já ali não assinei meu nome por medo do fracasso. Todavia, foi um sucesso. Público, crítica, eu. Na época, lia e relia aquelas páginas de cabo a rabo, sem enjoar de uma linha sequer. Esse sempre fora meu termômetro: se você consegue ler um texto seu um milhão de vezes, um milhão de pessoas conseguirá ao menos uma vez.


Meu segundo e terceiro livros saíram juntos. A coletânea de pequenos textos fora grande o bastante para dois. Batizei os gêmeos com o mesmo sobrenome (não o meu, claro, nem o do primeiro livro). Ambos surpreenderam, até mais que o primeiro, no começo. Para os outros, faziam todo o sentido. Para mim, não fizeram nenhum – não duraram afinal. Assim como o quarto, quinto, sexto. Sempre um novo eu, o mesmo fracasso de sempre.


Já perdi a conta de quantos livros escrevi ou quantos nomes assinei. Já não sei se tenho esperança de algum deles me salvar. Já lhes disse que sofro de um mal. Agora vocês sabem que mal é esse: sofro o mal que já fez bem, e a cada linha faz mais mal ainda. Arranco as folhas de um arquivo em branco. Na capa, um borrão disforme me transforma. Não consigo apostar em livro algum, se nem mesmo o primeiro, aquele que um dia acreditei que fosse meu, se nem esse eu leio mais.


Gozado como a vida nunca esquece e sempre cobra. Quando eu menos espero, ela aparece. Traz um sorriso amarelo no rosto e a dedicatória promissória nas mãos, tentando minha assinatura outra vez.



“E sem querer nenhum poder

Poder viver feliz pra se morrer em paz” (Vinicius de Moraes)


Quarta-feira, Agosto 12, 2009

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Eu, tu, eu.

Muito tempo convivendo com a mesma pessoa acaba gerando alguns problemas. Não de propósito, mas simplesmente um resultado natural da rotina. A gente acaba não dando ouvidos a certas coisas, dormindo sem passar pelo menos alguns minutos com a pessoa, valorizando demais as novidades, sem aos menos conferir se são de verdade. Uma hora, mais cedo ou mais tarde, a ficha cai. E aí a gente tem que correr atrás do prejuízo. No meu caso, foi mais para o ‘mais tarde’.

Um dia cansado, eu o vi no quarto, como de costume. Enquanto me preparava para tomar banho, ele começou a falar; sem parar. Aos poucos fui escutando. No fim, eu chorava como uma criança, deitado sozinho na cama. Tomei banho e saí. Precisava de ar, precisava respirar, afinal, tinha acabado de me dar conta de que havíamos terminado. E pior, não tinha sido aquele dia, eu é que só havia me dado conta ali.

Cheguei à lógica conclusão que seria literalmente impossível viver sem ele. Como não havia percebido que já estava só há alguns meses? Ah, às favas com o que passou. Tinha o futuro todo pela frente e o mais importante: o presente para deixar as coisas ainda melhores do que um dia foram. Passei a fazer o que lhe fazia bem, o que me fazia bem. Fiquei mais em casa, dei atenção a tudo que ele me falava, me reaproximei da família, li um bom livro, e aos poucos, ele ganhava de volta o espaço que sempre teve em minha vida. Espaço este que ia completando o vazio que eu não entendia de onde viera.

Não vou dizer que já está tudo certo, cem porcento. Ainda não. Estamos caminhando para isso. Eu sei o quanto somos importantes um para o outro. Ele também sabe. Afinal, somos um, que nunca deveria ter deixado virar dois. O dia em que a gente se vê sem a si mesmo é que descobre o valor de se amar. O quanto é gostoso contar consigo, rir sozinho sem motivo, o prazer que bate em fazer algo do bem, a delícia de acertar com a intuição, e a tranqulidade interior que chega somente quando compreendemos nós mesmos.



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Sexta-feira, Julho 24, 2009

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Copo de água

Eu me lembro que você sempre me trazia um copo de água. Lembro do mercúrio que você passava no meu joelho ralado, da porção de arroz sem cebola que você fazia separado e daquela camiseta que só você sabia encontrar no meu armário bagunçado. Lembro de você me buscando na primeira escola e me acompanhando até a padaria pra eu não ir sozinho. Ou então quando eu entrava no chuveiro e gritava que tinha esquecido a toalha, e você colocava na maçaneta pra mim. Eu me lembro de ir à feira com você, escolher as frutas, ajudar com o carrinho, mas na verdade eu ia mesmo por causa do pastel. Lembro que mesmo depois de grande, sem acordar a tempo, acordava com o pastel em cima da mesa da cozinha e você cortando a melancia, minha fruta preferida. Eu me lembro daquela música sertaneja que você cantava, que anos depois descobri que cantava errado, mas pra mim sempre será o jeito certo. Lembro da água na panela que você deixava esquentando que eu nunca soube por que. Do dia em que a gente descobriu o rato que rondava a casa, e de você me contando rindo como tinha “pegado o danado”. Ah, eu me lembro tão bem da sua risada, que às vezes a escuto sozinho no silêncio. Lembro claramente do seu medo dos clarões e relâmpagos: “não segura em nada de metal, Fernando”. Lembro das fofocas da vizinhança, de você, em pé, me chamando para almoçar enquanto eu jogava bola. E quando sentava comigo no sofá pra ver a novela, toda preocupada com a janta. Ou então simplesmente me colocava um cobertor quando cismava que estava frio. Como eu me lembro do dia que você trouxe tubaína pra mim. Lembro até do rótulo; do sabor, nem se fala... Sabe do que mais eu me lembro? Lembro dos nossos abraços, meio tímidos, mas pra lá de especiais. Do presente que eu lhe dei esse último natal e a sua alegria ao ver o que era. Também lembro da tristeza que senti há mais ou menos um mês, e da felicidade há mais ou menos um dia. Mas se tem uma coisa que eu não consigo me lembrar é quando que você se tornou parte essencial de mim. Viu, amanhã, sou eu que vou levar o copo de água pra você. Um beijo, eu te amo. Nunca se esqueça disso.

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Num momento meio sem tempo, e com a inspiração um tanto quanto viciada, abro as portas para um texto que recebi ontem de uma pessoa muito querida, minha bixete preferida.
Ela trabalha com banco, mas escreve de um jeito que até o Setubal se emocionaria.
Sem mais delongas,






Vermelho


Fala, mente
E arranca com força meu vestido
Marca vermelho o colorido
Nas costas de repente


Grita
Fundo e alto pra se convencer
Que não sou tudo que se quer
Com o meu gosto de mulher


Puxa minha nuca
Dedo nos cabelos
E nega agora nossos elos
Entorna sopro em desespero


Vai
Mas sem falar que eu deixo ir
Não sei mentir o que sentir
Na sua dor ímpar ao partir




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Terça-feira, Julho 14, 2009

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Deveras


Um brinde à cagada. Não a literal, a metafórica. O que seria de nós reles mortais se não fossem as cagadas? São elas que nos motivam a pensar, mudar, a tentar de novo. Não haveria graça no mundo se não as fizéssemos. É o que nos torna humanos palpáveis, distantes da perfeição. Por isso, repito: um brinde à cagada.


Há épocas em que as cagadas se acumulam, parece até perseguição. Em contrapartida, acontecem muitas atitudes corretas e positivas no mesmo período. A relação é direta: a cada cagada, compensação com acertos. E é nesse sentido que a cagada se torna positiva e digna de brindes. O perigo é cometê-las e deixar tudo como está.


Faça cagadas, várias delas. Peça desculpas sempre que possível, ou desculpe-se por outros meios. Mas nunca deixe de se redimir. Ser feliz não é difícil, é uma questão de prioridade. Ultimamente priorizo o sorriso. Rir no fim do erro já é o começo do acerto. Todos aceitam e entendem nossas cagadas, desde que sejamos os primeiros a fazer isso.


Você deve estar se perguntando se existem cagadas definitivas, insolúveis. Eu diria que não. Por pior que elas tenham sido, sempre existe algo melhor para acontecer depois. Infinitamente melhor. E isso sim é inesquecível. Se eu sou otimista? Deveras.


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Terça-feira, Junho 30, 2009

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Meet me in Montauk



Sempre fui um amante da sétima arte, desde pequeno. Durante anos e anos jamais consegui definir o meu filme preferido. Muitos gêneros, épocas, diretores diferentes. Impossível eleger apenas um. Isso mudou em 2002, numa tarde comum. Saímos às pressas, eu e um colega de faculdade, sem nem saber se conseguiríamos entrar na sala. Duas horas e pouco depois eu não conseguia sair dela. Atônito, acompanhava os créditos, ao som de Everybody´s gonna learn sometime. O filme? Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças.


Outro dia me peguei tentando entender o porquê deste filme ter ultrapassado todos os outros e ganhado minha preferência. Os atores estão perfeitos, Jim Carrey e Kate Winslet, além de Michel Gondry arrasando na linguagem meio vídeo-clipe, meio sonho, meio confusão mental. Não imagino outro diretor que conseguisse efeito igual. Sobre Jim Carrey sou suspeito para falar. Sempre fui seu fã, desde a época das caretas até a gostosa surpresa de seus últimos trabalhos dramáticos. Entre eles, Joel, o protagonista do filme. Ele criou uma angústia e resignação no personagem que nos toca desde o começo da história, e vai ganhando força no decorrer da narrativa. Quanto a Kate Winslet e sua Clementine não é preciso dizer nada. Impecável na pele da impulsiva jovem apaixonada. Enfim, elenco afiado e direção perfeita outros filmes também têm. Não é isso que o coloca em primeiro lugar.


E a história. Por que ela comove tanto? É fato que todo filme se transforma quando assistimos pela segunda vez. Acontece que Brilho Eterno vira outro completamente novo. A narrativa nos engana desde o princípio e a grande surpresa final nos remete diretamente ao início, criando um desejo louco de começar outra vez. Exatamente como o sentimento dos personagens. O flashback dentro da memória de Joel é outro aspecto impressionante que Charlie Kaufman (o autor) tece brilhantemente bem e Gondry transforma em imagens. Sobre o enredo non-sense e o aspecto quase ficção científica, estes ficam na superfície. São apenas um recurso inusitado para contar uma história de amor. E que história. Enfim, é quase isso que o coloca em primeiro lugar.


Será mesmo que o filme está certo e estamos fadados a um mesmo destino, independente da origem. Se sim, qual o problema? Não é o trajeto que importa? ... É uma delícia poder começar tudo de novo. A paixão inicial, a insegurança que faz tremer as bases, os olhares de cumplicidade. Aí, os primeiros passeios, o amor consumado e se construindo a cada dia, a timidez, as descobertas das preferências, os momentos musicais, etc. O tempo passa e o calor se transforma noutra coisa igualmente especial e gostosa. Até que vamos esquecendo, aos poucos, deixando-o meio de lado. Justamente para encontrá-lo de novo...


Outro dia me deparei com o Brilho Eterno como não acontecia há tempos e meus olhos se encheram de saudade. Ah, que prazer ver que essa paixão pode brilhar outra vez. E outra, e outra, e mais outra...


- That´s it, Joel. It´s gonna end sometime.
- I know.
- What shall we do?
- Enjoy it.


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Quarta-feira, Junho 24, 2009

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O que conta e não se conta



Tive muitos amores, é natural do ser humano apaixonar-se pela vida. Mas alguns insistem em não sair da cabeça: amor da juventude, paixonites agudas que arrebatam e outros mais sérios e duradouros. Enquanto vivi estes momentos jamais tive a pretensão de que durariam para sempre. Não importava. Simplesmente me deixava levar. Tempos depois, mesmo sem existirem mais, certas feições permaneciam nítidas na memória. Uma, em especial. Mesmo no timing de hoje penso em procurá-la, porque eu sei que assim como eu, ela me vê sempre que fecha os olhos.


Eu já sabia. Sempre soube. Alma-gêmea, tampa da panela, isso não existe, claro. Não existe no singular. Muitas pessoas passam podendo ser a sua metade. O que complica é o timing. Seu e delas. Demorei pra perceber isso. Ou não, vai saber. Às vezes não é pra ser mesmo, até que deixa de ser e a gente vê que era pra ter sido, sabe? Algumas pessoas passam por isso, eu passei mais de uma vez. Só nos resta aceitar, pois mesmo que um dia volte a ser, não volta como era. Tinha que ter sido ali, naquele momento. Ironicamente, a gente só descobre depois que não foi. Louco. Tantas coisas de repente passam a ter mais graça; pena que essas coisas não voltam mais.


Outro dia me peguei lembrando de um tempo. Aquele tempo que não se repete, que marcou e passou. Que ficou aonde tinha que ficar, sem a menor chance de voltar. Um tempo em que tudo aconteceu ao mesmo tempo; em tempo: intenso. Foi aí que comecei a imaginar e me colocar no tempo em que vivia aquele tempo, como se fosse hoje. Assustador pensar no presente já sabendo que mais cedo ou mais tarde – inevitavelmente – ele terá passado. O que será que vai ficar, marcar, o que será que eu vou guardar. O sorriso que me encantou ontem à tarde, ou quem sabe aquele do domingo à noite. Alguma coisa fica, nem que seja o fato de nada ter ficado.


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Sexta-feira, Maio 29, 2009

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De que cor?



Quando me diziam que a vida era feita de escolhas, achava que estavam falando o óbvio. Coisas como futuro profissional, sabor do sorvete e até mesmo qual filme pegar na locadora. Mas hoje penso que eles tentavam me alertar sobre coisas maiores. Comecei a entender num dia comum. Acho que era uma quarta-feira, meio da tarde.


Saí do trabalho para a manicure. O dia tinha sido tranqüilo e conseguira desligar meu computador com antecedência suficiente para tomar um café, num lugar agradável, entre o escritório e o salão de beleza. Sentei-me ao balcão e pedi um expresso com uma gota de leite. Quase ao mesmo tempo, ouvi o homem que pedia o simples do meu lado. Os cafés chegaram. Chegaram trocados. No primeiro gole, nós percebemos o erro e (só então) nos vimos. A coincidência e o total entendimento no olhar nos fez dar risada. E rimos muito depois disso. Antes que você me pergunte: não, eu não fiz as unhas àquela tarde.


Dias depois, passei no mesmo café. Aliás, sempre que passo em frente, olho discretamente. Não que eu saiba que atitude tomaria se o visse ali, provavelmente esperaria que ele tomasse. Esperaria um sorriso seguido do convite – convite igual ao que ele me fez no dia em que trocaram nossas xícaras. Convite para o qual escolhi dizer não. O porquê eu não sei. Muitas hipóteses navegam meu pensamento, mas não escolho nenhuma.


Enquanto faço minhas unhas, imagino sempre o que estaria fazendo se não elas, e ao lado ele. Quando escolho o vermelho 5ª Avenida, lembro que não escolhi jantar com um quase desconhecido, que me parecia tão familiar. As cores de tudo que não é parecem tão mais brilhantes e vivas do que todas as outras. Já tiveram essa sensação? A dúvida menos duvidosa que se pode ter... Fecho os olhos e não são as mãos da manicure que encontram as minhas.


Às vezes, podemos mudar com extrema facilidade. Do vermelho 5ª Avenida para o Canoa, e deste para o Chic e até quem sabe escolho o Volúpia, sem nunca deixar de ser vermelho, ou sem nunca deixar de ser esmalte. Ouvi dizer que existe uma chamada Me Beije, mas esta, eu não sei se ainda posso escolher.



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Sábado, Maio 23, 2009

Achava meio brega, achava sem sentido, sequer parava pra escutar. A melodia sempre linda me cativava, mas nunca o suficiente. Eu não tentava acompanhar, nem repetir, tampouco decorar.

A cada aula, mais gente a encontrava. Eu não. Fazia de conta que não era comigo. Não tenho nada com isso. Deixa cantar, logo passa.

Defesa?

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Até que, de repente, sem aviso prévio, senti-a pela primeira vez. Despi-me de qualquer preconceito ou expectativa e finalmente entendi. Em grupo, naquele momento, vivendo o crescer de uma ligação cada vez mais intensa, o sentido ultrapassou a barreira do som.

Foi aí, e tão somente aí, que finalmente entendi...





Deu meu coração de ficar dolorido

Arrasado num profundo pranto
Deu meu coração de falar esperanto
Na esperança de ser compreendido


Deu meu coração equivocado
Deu de desbotar o colorido
Deu de sentir-se apagado
Desiluminado
Desacontecido


Deu meu coração de ficar abatido
De bater sem sentido
Meu coração surrado
Deu de arrancar o curativo
Deu de cutucar o machucado


Deu de inventar palavra
Pra curar de significado
O escuro aço denso do silêncio
De um coração trespassado


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Segunda-feira, Maio 18, 2009

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somehow "I told you so" doesn´t feel quite enough




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Quarta-feira, Maio 06, 2009

endereço certo


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São Paulo, 5 de Maio de 2009.




Oi futura,



Prefiro chamá-la assim, porque desconheço o destino desta carta. Já a origem, posso afirmar que trata-se de uma vontade louca e sem sentido. Vontade em dizer algumas palavras que passeiam por mim, desde não sei exatamente quando. Desde o momento em que te reconheci. O sentido não é lógico, claro, é daqueles que não merece ser analisado. Sentido pra ser vivido, experimentado, arriscado, sentido; apenas.



Não. Eu não diria que se trata de uma carta de amor. A experiência diz que não é assim, de repente. Não o amor que se constrói, que se alimenta do amor crescente daquele que se ama. Como dois pequenos big-bens, chocando-se um com o outro, encontrando-se e reencontrando-se na ansiedade paciente do infinito. (Quem melhor do que o amor para falar de paradoxo). Enfim, falo do que pode ser, através do pano de fundo daquilo que já é.



Que palavras são essas que persistem tanto sem um porquê? Curiosidade, como é de se imaginar; Cumplicidade e intimidade. Coloco-as juntas para não confundir com os significados que podem ter separadas; Carinho, porque esse já existe; Loucura, porque é muito mais do que o motivo desta carta; E paixão, por ser o sabor que as palavras anteriores mais desejam.


As demais derivam destas que falei. Junte-as à imaginação e terá milhares de possibilidades, impossíveis até. Mas quais serão? Ela, a resposta, vem aí. Rápida ou lentamente, tudo ou nada. Pode ser o que quiser, pode acabar nas entrelinhas deste fragmento. A magia é justamente não saber o que será.

Termino sem conclusão – eu avisei. Termino, porque o sono está me vencendo. Aliás, prometo tentar sonhar com você, coisa que ainda não aconteceu. Não que eu me lembre, não com os olhos fechados. Prometo te encontrar. E quando isso acontecer, prometo te abraçar. Prometo tantas coisas, fazer acontecer, quiçá. Eu prometo. Eu fico por aqui. E você, cadê?


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Segunda-feira, Maio 04, 2009

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Domingo


O sonho acabava e misturava-se com a realidade. Sentia apertos nas costas, ou estavam mais para massagem? Não. Eram apertos mesmo. Dos bem doídos. Olhando de perto o travesseiro desfocado teve certeza de que ela espremia seus cravos das costas. Ele nunca gostou muito disso, mas ela amava. Vira e mexe, pegava-o dormindo, desprevenido, pele macia: podia se deleitar.

- De novo, Cá?
- Ah, você é muito chato.
- Eu?!

Ela se levanta e abre a porta do quarto. Dá para escutá-la ganhando os degraus da escada. Um pouco mais baixo, ouve o som da geladeira, do armário, o gostoso ruído do líquido tomando conta do copo...

- Pê. Acorda, Pê.
- Hm. Que foi?
- Acorda. Eu não agüento mais ficar na cama.
- Então levanta.
- Ah. Desce comigo. O dia tá lindo. Vamos fazer alguma coisa?
- Tipo?
- Parque. Há quanto tempo que a gente não vai pro parque?
- Domingo no parque? Trânsito, flanelinha, isso se achar lugar pra parar... E lá dentro então. Ou te atropelam com uma bicicleta ou leva mordida de pincher. Aquele bem chato.
- Igual a você.
- Não. Parque não.
- Hm. Bate-e-volta pra praia?
- Ãhn?
- É. Pensa só que legal. A gente senta num quiosque, ou aluga umas cadeiras e fica tomando sol. Sorvete do Rochinha! Isso, vamos vai?
- O Rochinha já subiu a serra. Até na padoca aqui do lado vende.
- Nossa. Você tá insuportável hoje.
- Culpa sua. Meu humor acabou com você me acordando.

Segundos de silêncio. Ele abre os olhos para falar com ela, mas não vê ninguém ali. Com certeza, saíra sem fazer ruídos, justamente para causar tal efeito. Mas não ia se render, ela que voltasse.
O que ele não sabia é que naquele momento, ela já saía da casa. Triste, andava pela caçada. Pensando em voz alta, atravessa a rua distraída. Nem percebe o caminhão de mudança que a acerta em cheio.

Enquanto isso, ele, sonhando o que parece realidade, vê um acidente envolvendo uma bicicleta, bem no caminho do litoral.
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Quarta-feira, Abril 01, 2009

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Segunda chance



Para muitos, a maior.
Para outros, só mais uma.


Para os otimistas, satisfação.
Para os culpados, redenção.
Para quem ama, sonho.
Para quem odeia, desejo.


Para os desligados, inutilidade.
Para os medrosos, fuga.
Para os revoltados, nada.
Para os idealistas, tudo.


Para um cara apaixonado, esperança.
Para uma garota desolada, dor.
Para os que aproveitam, felicidade.
Para os que deixam passar, arrependimento.


Para quem acredita, questão de tempo.
Para os descrentes, teoria.
Para quem insiste no erro, cotidiano.
Para quem sempre acerta, desnecessário.


Para os mal-intencionados, nunca.
Para os de bom coração, sempre.
Para os injustiçados, tomara.
Para os arrependidos, talvez.



E a pergunta que fica é sempre a mesma: o que fazer com ela?


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Sexta-feira, Março 13, 2009

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Prosa na piscina de pedras
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Falo de começo e (re)começo,
da saudade do que ainda não vi,
do estar presente quando ausente,
de paradoxos, praticamente.

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Cada resposta, muitas perguntas
com vontade de ser agora.
É uma angústia por aplausos,
que sabe o sabor da demora.

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Demora porque quer,
demora porque sim.
Talento é dom treinado.
Demora, porque tem que ser assim.

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O palco agora
é o palco que não é.
Não tem luz, não tem coxia.
É de pedras... de sonhos, fantasia.
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Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009



A casa sempre ganha



– É muito simples, – explicava o velho homem – você tem uma semana para devolver o dinheiro com dez por cento em cima. Senão, a casa não é mais sua. – Mal sabia ele que a casa não era minha já naquele momento, aliás, nunca tive uma. Não deu tempo.


– Certo. Posso ir? – Levantei antes de o velho responder e saí apressado. Havia muito o que fazer antes da noite cair. Precisava resolver um detalhe fundamental para seguir rumo ao meu destino.


Algumas horas depois, estacionava meu carro próximo ao clube. (Clube, era assim que a gente chamava). Segui ágil e cauteloso. Rápido demais, levantaria suspeitas. Amedrontado também. Era muito dinheiro no bolso, era tarde da noite. Suando, cheguei à entrada. Bati na porta apressadamente. Três vezes e meia; era o sinal. Uma pequena janela na altura dos olhos foi aberta e o japonês careca apareceu. Saquei um dos maços de dinheiro e chacoalhei-o em seu nariz redondo. Um pouco mais aliviado, ouvia os resmungos do japa irem esvanecendo-se em meio aos ruídos do grande salão.


Nem olhei para os lados. Fui reto, rumo à mesa principal, a mesa escondida, nos fundos. Lembrei-me da primeira vez que fui convidado para participar dela. Um ano antes mais ou menos. Ganhei uma pequena fortuna aquele dia. Deslumbrado, virei habitué do loc..

– Que cê tá fazendo aqui? – uma mão enorme me parava pelo peito. Em um tom de voz mais baixo, fui também seco:

– Advinha? Empinar pipa, claro.

– Se eu fosse você, não viria com brincadeira. Principalmente depois do...

– ... Nem começa. Entra lá e fala pro Luceno que eu tenho grana e quero jogar com ele.

– Quanto?

– Duzentos. Mil.


Duas horas e meia depois estávamos eu, Luceno, seu all in e a casa dos meus pais na mesa. A tensão no local poderia acender um holofote. Se eu aceitasse a aposta, seria a última rodada. Nunca estive tão perto de ganhar daquele desgraçado. Meu par de reis podia tranquilamente liquidá-lo. Luceno me encarava com seus olhinhos finos e cinzas, por baixo de óculos velhos (com direito a esparadrapo num dos cantos). Dava para sentir que o resto da mesa também me encarava. Não me interessava:

– Quero ver. – Durante centésimos, os músculos da face daquele pilantra mafioso tremeram ao ver meus reis caírem à mesa. Na sequência, jogou seu às e rei perto do pote; foi a minha vez de tremer.


As cartas começaram a ser viradas. Primeiro o flop: dama, rei e às. Bom para ele, ótimo para mim. No turn, outro às. Ele não conteve o riso. Eu, mesmo sabendo que a chance de vencer um full house de às era menor do que uma agulha num campo de futebol, estava tranqüilo. Era como se eu já tivesse visto o rei que apareceria na última virada. Minha quadra transformou o Luceno numa figura tão deprimente que seria difícil descrevê-lo. Quanto a mim, sentia-me absolvido, impune, puro, um semideus.


Deixei a porta e o japonês careca para trás, mais assustado do que quando entrei. A mochila de dinheiro pesava horrores, apertei o passo. Meu nervosismo não me deixou perceber os dois caras que saíram de um beco assim que passei. Muito menos ver que um deles erguia uma pistola automática na minha direção. O barulho do tiro sequer foi processado pelo meu cérebro. Foi ele que a bala atingiu.


Olhando a mim mesmo ali do alto, estatelado sobre uma poça do próprio sangue, percebi por que meu semblante continha um sorriso: meu vício chegara ao fim, bem como as dívidas da família. Afinal, gastei metade da hipoteca em seguro de vida àquela tarde.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009



Presente


Entrou naquela casa como sempre fez desde pequeno, cumprimentou D. Cláudia com carinho de segunda mãe, e seguiu rumo ao quarto da garota, que hoje é praticamente seu de tanto entrar. Ao abrir a porta, ela estava – de novo – na cama.

Vai, levanta daí. – Um som abafado pelo edredom respondeu algo inaudível. Ele insistiu: – Pô, Ju. Levanta meu. Por favor. – Repetido o som, desta vez escutado:

Me deixa em paz... – sem ligar para a resposta e sentando ao pé da cama, continuou a argumentar:

É sério, Ju. O que você ganha deitada aí? Já passaram duas semanas.

A questão é o que eu não perco. – Paciente, ele deu trela:

Ok. O que você não perde? – A resposta seguinte veio no tom mais amargo que aquela voz doce de menina jamais proferiu:

Nada. Mas sempre que eu levanto ou ponho a cara para fora, alguma coisa dá errado. Já aqui? Não perco nada.

Pára de besteira, garota. Vamos dar uma volta! Mudar esse cabelo, fazer compras na Zara, comer besteira no Burguer King... que tal?

Péssima idéia. Odeio a Zara, meu cabelo é ruim e comer junkfood é tudo que eu preciso agora... Sai, vai. Me deixa.

Só depois de te dar o que eu trouxe.

Deixa aí na mesa... e pode ir.

Não. Assim não tem graça.

Hm. O que é? Me dá então.

Mas não está aqui. Deixei no carro, você tem que descer pra ver.

Boa tentativa...

Você que sabe... é melhor eu ir então... – levantou-se e foi se aproximando da porta encostada, quando:

Espera... É sério? Existe algo mesmo? – Ainda de costas, ele riu em silêncio. Contendo-se e virando para ela, balançou a cabeça:

Ã-hã.

Eu vou gostar?

Tenho certeza que sim.

Aiiiii... – tirando o edredom de cima do corpo, falou desconfiada e ele pode jurar que ela segurava um pequeno sorriso, meio Monalisa – Tudo bem. Mas eu vou de pijama, viu.

Certo.

Minutos depois chegavam às vagas destinadas a visitantes. Com o controle do alarme, ele destrancou o carro. Ela, ansiosa, foi até a porta, abriu-a e correu os olhos por todo o interior do mesmo. Virou-se para trás, dizendo: - Mas não tem nada. Cadê? – Mal terminava a pergunta e já sentia dois lábios quentes e nervosos de encontro aos seus. Mencionou reagir, mas não era possível; não era preciso. Dois braços mantinham-na firme pela cintura. Aos poucos, dos lábios, surgia a língua. E dela, um prazer há muito esquecido. Lágrimas ameaçavam entreabrir seus olhos, os joelhos estavam frágeis feito porcelana, um esquentamento nas maçãs do rosto faziam-na crer que se alguém pudesse vê-la, estaria cor de romã... A sensação, de tão boa, era em si a certeza de seu próprio terminar. Não quis pensar no depois. Esqueceu o antes. Apenas saboreou o presente. “Como ele tinha certeza?”.



Domingo, Janeiro 25, 2009


O vazio é cheio na coxia


Fim do terceiro ato: clímax máximo em todo o teatro; tensão em cena e apreensão na platéia. Apesar do tema recorrente – há séculos o texto é montado por todo o mundo, o público estava absorto. O protagonista se suicida, como esperado. Na sequência, sua companheira de ribalta passa a agir de forma completamente inesperada. Seu texto já não pertence à tão conhecida obra e seus movimentos parecem fora de controle. Ela corre para os fundos e logo depois as cortinas se fecham, separando um público atordoado de um corpo inerte no palco.


Metade do segundo ato. A peça flui bem, cativa os expectadores. Estes, enredados à história, não notam uma jovem caminhando pela lateral do teatro e entrando por uma porta escondida no canto direito do palco. Ela conhece bem aquela passagem, e logo ganha a coxia. Estava uma bagunça, estava um breu; estava como sempre esteve. Rápida, caminha até uma pequena sala cheia de objetos cenográficos. É silenciosamente cuidadosa em todos os seus movimentos, não pode ser ouvida pelos atores que se maquiam na sala ao lado. Exatamente como calculara, àquele ponto da peça, a sala dos objetos estaria vazia. Segura, despeja um líquido denso e amarelado numa pequena garrafa de vidro. Recoloca a rolha, devolve o recipiente e repete o caminho que fizera poucos minutos antes, mas não retorna ao assento que ocupava. Segue até a saída e deixa o teatro.


Início do primeiro ato. Uma jovem atriz caminha para a primeira reunião da nova temporada do espetáculo que protagoniza. Está nervosa e apreensiva, sabe que está a minutos de encontrar o namorado (seu colega de cena) que não vê há mais de um mês, desde que ele pediu-lhe um tempo no relacionamento. No hall de entrada, já vem a primeira surpresa. Ao encontrá-la, o diretor, muito envergonhado, diz que a protagonista mudara e que pelo embaraço causado, certamente puniria a produtora incumbida do telefonema que ela deveria ter recebido uma semana atrás. Antes que pudesse absorver o que ouvira, vem o segundo golpe. Mais doloroso, daqueles que precedem o vazio e a vontade órfã de desaparecer: seu namorado atravessa a porta, abraçando e beijando uma garota abraçando um texto com partes grifadas. Pego desprevenido, ele não mostra qualquer reação. Ela corre de imediato, para não mostrar nenhuma lágrima. Algum tempo depois, recompondo-se numa praça próxima, decide garantir sua presença na noite da reestréia.


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Quarta-feira, Janeiro 21, 2009



Faces da vida



Ao acordar pela manhã tive uma daquelas sensações estranhas que misturam surpresa, medo e incerteza de tudo ainda ser (ou não) um sonho. Algo como os primeiros segundos pós-sono num hotel ou casa de amigos. Mas, ao contrário destes, não descobri onde estava nos instantes seguintes. Pior, muito pior. Tanto tempo olhando o teto e o restante do quarto, sem me levar à nenhuma conclusão, fez com que decidisse me levantar dali e checar o resto da casa.


Corredores, demais quartos, banheiro. Tudo me lembrava nada além de uma casa normal. Nada me indicava a mínima pista que precisava. Chegando à sala tive medo de ser flagrado nesta postura de detetive, espionando. Mas ora, eu estava dormindo sem que ninguém se importasse há minutos atrás. No mínimo, era um convidado. De toda forma, o silêncio provava o vazio e pude verificar, com a calma que queria, tudo o que precisa: armário por armário, a prataria, taças, toalhas.


A mesinha de canto, até então despercebida, chamou minha atenção. Sobre ela, muitos porta-retratos me encaravam. Fui chegando perto, encarando-os de volta. Mesmo de longe era fácil dizer que a foto principal, a maior delas, bem ao centro, tratava-se de uma família completa. Meu coração acelerou e eu diminui o passo. Porque quanto mais perto da foto, mais eu reconhecia um dos rostos e menos reconhecia os demais. A curiosidade que me levara até a foto não pode acreditar.


Ali, no meio de uma sala comum, segurava em mãos uma família completamente desconhecida com exceção de uma pessoa: eu. Sim. O homem que abraçava duas crianças enquanto afagado por uma mulher era eu; alguns anos mais velho, mas era – definitivamente – eu. O barulho do trinco me assustou e a foto caiu sobre mesa. Ao redor do retrato caído, muitos outros tinham os mesmos semblantes em situações e roupas diferentes. Reconheço meu rosto em todos, não reconheço ninguém. O curioso é que parecemos tão familiares.


Agora é o rangido da porta que me alerta. A mulher das fotos é a primeira a entrar, logo em seguida passam as duas crianças correndo. Antes que eu possa realizar porque nenhum deles me notara, uma quarta figura atravessa a porta. Este sim me reconhece. Eu me reconheço; com roupas que nunca usaria, rindo um riso que há muito não ria. Além dos anos a mais, via em mim tristezas e decepções a menos. Ficamos assim: diante do espelho. Do tempo, duas faces e dois mundos. Cada qual desejando ser uma parte do reflexo que é.



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Quarta-feira, Janeiro 07, 2009




Encontros subjetivos




Eu a conheci primeiro, há muito tempo atrás, mas ela não se lembra. Ela me conheceu pouco tempo depois, mas isso eu não lembro. Nos reconhecemos em uma terceira oportunidade. O curioso é que ali já nos conhecíamos e mesmo assim era como se estivéssemos, finalmente, nos conhecendo. O instante foi mágico, rápido e demorado o suficiente. Era como se soubéssemos que aquele não era o momento, e que um gesto a mais ou uma palavra a menos não mudariam nada desta vez. Meus olhos brilhavam a certeza de que nos encontraríamos de novo, e de novo e de novo, quantas vezes fossem necessárias.


Entre esse terceiro encontro e o quarto que um dia, enfim, chegaria, um bom tempo se passou. Nele, houve momentos em que sequer me lembrava dela. Em tantos outros, a memória incomodava de tão nítida e presente. Nessas horas, a vontade que eu tinha era de bater na porta dela – seja lá onde ficasse, e gritar que o cara com que ela havia estado apenas duas vezes em sua inteira existência, por um tempo total de aproximadamente dez minutos, podia ser o homem da sua vida. Podia. Eu podia ter feito isso. (...) Conjecturas à parte, a insanidade momentânea logo dava lugar à realidade mundana e a calma antes vista em seus olhos refletia dentro de mim, na forma da tranqüilidade típica de toda espera cuja recompensa é garantida.


Quando finalmente nos encontramos pela quarta vez, não consigo me lembrar dos detalhes, minha sensação interior era a melhor possível. É isso. O que guardo dentro de mim é o estado de espírito que vivia. Estava naqueles dias em que até mesmo o vento breve que sopra de uma porta entreaberta escolhe você . É um dia em que tudo está do seu lado, as pessoas, as roupas, a luz, a música, as piadas, os gestos. Ao longe, eu a admirava; sem deixar de fazer o que quer que estivesse fazendo. Era com o canto do olho, como quem confere se a sobremesa continua no mesmo lugar enquanto ainda aproveita o jantar. Ela agia de forma idêntica e me olhava de volta. Sabíamos o que o outro sentia e esperávamos a ansiedade de uma das partes sair vitoriosa.


Depois só consigo me lembrar do momento em que abria os olhos ao seu lado. Resolvi fechá-los, e o que vi foram flashes tomando conta de mim, como um vídeo-clipe iniciado por algumas fotos, que passaram a se multiplicar ganhando velocidade, até se transformarem em filme. Som e imagem perfeitos. Cheiros e toques também. Saí antes que ela acordasse, colocando minha memória recém-adquirida em repetição sem fim.


Ao notar o que ficou após minha saída, ela sorri. E então, bem ali, inicia-se mais uma espera. A espera do próximo encontro.



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Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Madrugada


Insônia de novo. Merda. Sei que já devem ser altas horas. Conheço a madrugada pela quase ausência de ruído nas ruas. Acendo a tela do celular. O horário é o mesmo de sempre: quatro e um. De novo? Será isso algum sinal do sobrenatural para um cético como eu? Existe muita coisa que você desconhece, reles mortal. Foda-se.


Sempre me aconselharam a correr em caso de insônia. Eu não costumo correr nem de cachorro, quanto mais nas ruas, em plena madrugada. Mas depois de tantas noites acordando às quatro e um era melhor tentar algo diferente. (Se fico na cama, conheço bem o final). Logo ganho as ruas, vou num ritmo leve, preciso ajudar minha condição física a me levar para fora do bairro; ao menos.


Depois da segunda grande avenida, começo a me surpreender: estou indo longe demais. Ao melhor estilo Forrest Gump, arrisco uma avenida maior, e vou ainda mais longe. Estou suado, mas não cansado. Corro, e corro mais um pouco. Venço uma grande ladeira, aproveito a descida para respirar. Não paro, não quero parar.


Resolvo pegar uma transversal, cansei; da avenida. Meu ritmo continua igual. Passo vários cruzamentos, encontro vielas e portões (alguns latem ao me ver passar) mas não mudo meu caminho. Nem reto, devem ser mais de cinco horas, nem lógico. Penso re-conhecer esta rua. Sim. Sem querer (ou o contrário?) me levei à casa dela.


Quantas vezes olhei esta esquina, há quanto tempo não viro por ela. Paro. Caminhando me aproximo. Será que ela vai me reconhecer. Não seja estúpido, isso é óbvio. Será que vai gostar de me ver. (Não sei nem se eu me lembro dos seus traços exatos. Como uma foto linda, um pouco embaçada, foi esta a imagem que guardei, que minha mente quis guardar). Ouço gritos. Corro de novo, tudo acontece muito rápido. Reconheço-a abrindo a porta, ela corre, ela me vê (acho que tem o rosto ferido), grita muito, fala para eu correr – é brincadeira?, seu olhar se transforma em desespero.


Deitado no chão, consigo lembrar do filho da puta que, vindo por trás dela, disparou cinco tiros. Deitado no chão, finalmente me lembro do seu rosto; encara-me afogada em lágrimas. Deitado no chão, tento sorrir, mas engasgo; provavelmente em sangue. Deitado no chão, ela me tem em seus braços; aposto que sente meu coração inquieto. Ao fundo, bem baixinho, ouço a sirene chegando. Deitado, a cena começa a sumir e a sirene a aumentar.


Ser acordado pelo apito contínuo do celular me acalma, mas meu coração continua inquieto. O display marca oito horas e dois minutos.

...

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008



Doze



Deitada de bruços e rosto contra o travesseiro mal conseguia respirar. As lágrimas há muito já secas e a cabeça doendo de tanto pensamento; nojento, desprezível. Ainda se morasse num andar mais alto. Do quinto, a queda poderia apenas ferir, o que faria sua existência ainda mais nojenta e desprezível. Lembrou-se de uma frase de filme B, daqueles nojentos mesmo: se é pra pular, que pule do décimo segundo. Doze, é isso. Doze.


Saiu do elevador e tocou a campainha. Um por andar, a porta marcava cento e vinte e um. A empregada abriu com semblante curioso, e antes mesmo que pudesse dizer palavra, a garota do quinto andar saiu em disparada. Empurrou a porta com a empregada junto, correu pela sala, em direção à varanda de céu azul ao fundo. Mas, pouco antes de alcançar a porta de vidro, um jovem que assistia à TV se jogou contra ela. No chão, debatia-se, tentava se desvencilhar. Ele, mais forte, pedia calma. Quando conseguiu fazê-la parar de se debater, olhou a cena por completo. A porta escancarada, a empregada assustada, o caminho rapidamente percorrido, e o objetivo não concluído. Virou-se para ela e perguntou: por quê?


Meia hora depois tomavam chocolate quente no sofá. Eles nunca tinham se conhecido, ela era nova no prédio. Vez ou outra, ele olhava a varanda, garantindo que estivesse em boa posição novamente. Ela, nervosa e envergonhada, não tirava os olhos da xícara. E, monossilábica, apenas respondia às perguntas dele. Incomodada com o incômodo que ele demonstrava, garantiu: não vou pular. Não se preocupe, aliás, estou indo para casa. Olharam-se nos olhos no momento em que ela devolvia a xícara. Quis agradecer, dizer algo. Não conseguiu.


Dias depois, alguns amigos estavam jogados na escadaria da entrada do edifício. Turma idiota, jovens metidos, tirava sarro de um garoto estranho que se aproximava. Ao chegar à frente do prédio, o garoto estranho reconheceu a jovem do quinto andar em meio aos que o zoavam. Ela desviou o olhar, ele seguiu até o elevador (ainda ouvindo risadas maldosas), apertou o doze. Como num estalo, ela se deu conta. Xingou seus amigos - para surpresa deles, e mandou todos embora. Correu até o elevador. Novamente o doze, novamente um objetivo definido.


Saiu do elevador e tocou a campainha. A porta ainda marcava cento e vinte e um. Ao abri-la, a empregada soluçando, jogou-se no chão, sem conseguir dizer palavra. Atrás, a garota do quinto andar pode ver a cena por completo: a sala, a TV ligada, o sofá vazio, e ao fundo, a varanda de céu azul com a porta de vidro aberta.


Sexta-feira, Dezembro 05, 2008



Só seis.



Da lista de livros diferentes e inusitados que saem por aí, eu não podia deixar de comentar este: 'Not Quite What I Was Planning' (Não era bem o que planejava). Lançado nos EUA, o livro nada mais é do que uma grande coletânea de frases contendo apenas seis palavras, vindas de famosos e anônimos. O curioso é o teor destas frases. Pediram a eles que resumissem a própria vida (até o momento, não estamos falando do Oscar Niemeyer) em seis palavras. Só seis.

Fico imaginando a resposta de algumas pessoas.

Adriane Galisteu certamente diria: “O antes e depois de Senna”.

Já para Silvio Santos, seria justo dizer: “Quem quer dinheiro? Eu sei ganhar”.

Caetano, se brincasse com suas próprias citações: “Uma vida verdadeiramente extraordinária, ou não”.

Outro menos popular, como o navegador Amyr Klink, poderia dizer: “Passei quase metade dela no gelo”.

Clodovil, prepotente como sempre e inspirado na onda do movimento gay, diria: “Orgulho é ter sido o primeiro”.

E o novo presidente americano, Obama, seguindo seu discurso de campanha: “Sempre acreditei, um dia os convenci”.
Fugindo dos famosos, um camarada metido a Don Juan aproveitaria para se mostrar: “A serviço de muitas mulheres infelizes”.

Já aquele rapaz inconformado que finge se conformar: “Juro que fiz o que pude”.

Um hippie saudosista, ao lembrar de Woodstock, resumiria: “O ano de sessenta e nove”.

E por aí vai. Poderia continuar conjecturando várias, mas decidi imaginar a minha própria resposta. Olhando pensativo para essa tela, cheguei a conclusão de que o título deste blog, além de dizer muito, tem seis palavras.






... e você? Qual seria a sua?
Lembrou de mais alguém e como ele resumiria?





Quarta-feira, Dezembro 03, 2008



2008


Um ano. Muito mais que doze meses ou trezentos e sessenta e cinco dias, um ano é data redonda, usada com freqüência e representativa ao extremo. Para começar, é aniversário; não só o meu ou o seu, mas de qualquer data existente. Dia disso, dia daquilo, bodas de todo tipo e pedra preciosa, até da morte se “comemora” o aniversário.

Da escola à pós-graduação (ou qualquer outro tipo de curso), talvez sejam os casos em que o ano ganha mais força, chega a segregar. Eu estou na oitava, mas ela é do primeiro. Nossa, que longe! Inacessível. Há também a característica de relatividade do ano. Se já faz um ano que alguém morreu, quase sempre parece que foi ontem. Quando foi que eles casaram? Ih, tem tempo. Um ano.

Morando em outra cidade, o ano causa este efeito contraditório de forma simultânea. Poxa, já faz trezentos e sessenta e cinco dias que não durmo na minha cama. Por outro lado, não acredito que, em apenas doze meses, conheci tantas pessoas e lugares novos. Na maioria, especiais.

Deixa saudade, marca, um ano – mais do que tudo – fica. Fica em você, nas suas roupas, na sua história. E se é para ficar, que fiquem as coisas boas. As ruins, ah, essas parece que passaram voando.



Quarta-feira, Novembro 26, 2008



Aquilo que é meu



Estávamos todos na sala, vendo TV. Papai, muito sério. Desde o jantar que ele não deixava nem mamãe nem Ronaldo abrirem o bico. Eles tentaram por toda a tarde argumentar que a gente deveria dormir na vovó. Em vão. Obedecemos outra vez e enquanto íamos para a cama, campainha. Um moço esquisito, todo encapado, começou a falar. Ouvíamos tudo do corredor. Mamãe, do sofá. Eles conversavam sobre ser perigoso, sobre sair de lá. Papai não deu ouvidos, deu as costas e não deu chance para ninguém dizer mais nada: “para cama”, disse.


Fomos. Chovia demais, como há vários dias. Gostoso dormir na chuva. Pena que não durou muito. Não sei se porque quando a gente dorme tudo passa rápido (ou porque passou mesmo), mas logo que fechei os olhos, Ronaldo acendeu a luz. Ele me olhava assustado - notei que pisava na poça. Aliás, o quarto todo era uma poça de água e barro. Com medo, puxei o lençol e me encolhi, Ronaldo veio até mim. A casa tremeu, a luz apagou, telhas caíram, a casa rodou.


Em meio a tanto trovão, ouvia muitos gritos (pensei ter ouvido a voz de mamãe), Ronaldo pegou em mim e me abraçou, disse que tudo ia ficar bem, mas nada ficava: tudo se mexia, rápida e violentamente, eu não podia ver, sentia trancos, coisas batiam no meu corpo, água, muita água, meu irmão se desprendeu de mim...


Acordei, não sei quanto tempo depois, na escola. Muita gente sentada no chão da quadra. Muita água batendo no teto de metal. Procurei mamãe, papai e Ronaldo aquele dia. Naquele e em todos os outros que se seguiram. Tem gente que diz que viu Ronaldo me trazendo até a escola e voltando para procurar meus pais; ele nunca foi encontrado. Se encontrou papai e mamãe, gosto de pensar que sim.


Tem gente que pergunta se tenho medo da chuva. Eu abro um sorriso. Sempre que o tempo fecha, saio na rua. Abro os braços e deixo a chuva cair. Eu gosto de pensar que cada gota que sinto é um carinho, há muito tempo reservado para mim.


....

Quinta-feira, Novembro 13, 2008




Passageiro



De pé, mochila nas costas, Radiohead nos fones de ouvido, olhos marejados do último bocejo, aguardando o ônibus chegar. Gosta de analisar as pessoas enquanto espera. (Passa o tempo e é divertido.) Aquela senhora dos pés tortos sempre conta com a cidadania que oferece o desconfortável assento de metal, embaixo do ponto. Sempre no mesmo ônibus que o dele, quase sempre no mesmo minuto. Um senhor de camisa por dentro da calça acaba de chegar. Não é tão velho quanto aparenta; seu aspecto surrado e marcas de expressão denotam que não foi só o tempo que acabara com sua juventude. O ônibus chegou.


Passam ali dezenas com o mesmo destino que sempre saem lotados, e a cada meia hora, chega o que o leva ao trabalho. Poderia pegar o outro, mas teria que andar mais e enfrentar a lotação constante. Prefere esperar. Sempre consegue um lugar. Abre o livro da vez. (Radiohead continua ritmando seu pensamento.) Termina a página e sente uma presença. Quando olha, ela o encara no mesmo segundo. Sim. É ela. E que ela. Uma garota encantadora. Ela sorri. Ele, abobado, perde a chance de sorrir de volta. Ela também está lendo.


De tempos em tempos, um dos dois faz questão de olhar o outro. Quando isso acontece, o alvo do olhar retribui, os olhares se encontram, e dão lugar a sorrisos sem graça. A cena se repete cinco vezes. Antes da sexta, ele tira os fones e pergunta o título do livro dela - é o começo de tudo. Até o destino (dela, um ponto antes do dele), já travaram um longo diálogo. O interesse mútuo cresce em progressão geométrica, e pela primeira vez na vida de ambos: desejam que o trajeto nunca chegue ao fim. Mas chega. Ela faz menção de se levantar, ele a segura pelo braço. Convicto, diz que devem seguir por mais um ponto. Promete acompanhá-la de volta. Ela aceita, eles se beijam.



Infelizmente, rápido chegam ao ponto final. Rápido também é o trajeto de um ponto ao outro. A pé. Aos beijos. A sós. No meio da grande avenida. É difícil parar de beijar, impossível largar as mãos, tortura ver o outro se afastar. Ela some na multidão. Ele segue na outra direção. No dia seguinte, espera por ela ansiosamente. E no outro, e no outro, e no outro. Após uma semana, já sabe que não a verá mais. Até hoje, ouve o mesmo Radiohead, observa a mesma senhora, senta no mesmo ônibus e desce no mesmo ponto. Mas sempre, no ponto anterior, ele se lembra. Ele se lembra do amor mais intenso que já viveu. Ele se lembra do amor mais passageiro que já conheceu. Intenso, de tão passageiro. Passageiro, de tão intenso.



Quinta-feira, Novembro 06, 2008


Querido diário,

Hoje ele olhou para mim. Sei lá como te contar isso, você pode pensar que eu estou exagerando. Mas não, eu juro. Ele olhou mesmo. Olhou de um jeito diferente, de um jeito só pra mim. Está certo que eu não resisti nem meio segundo encará-lo também. Te garanto: deu para sentir que ele continuava olhando. Pode parecer que estou ficando louca, mas tenho certeza que ele me penetrava com o olhar...


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Querido diário,

Aconteceu!!! Aliás, foi anteontem já. Desculpa não ter te contado antes, é que eu tava tão empolgada e curtindo o momento que me esqueci. Mas estou aqui agora e vou te contar tudo. Foi lindo, mágico. Ele é demais, que beijo, que abraço carinhoso... parece que tudo que ele quer é fazer eu me sentir bem. Naquele momento só existe nós dois. Ele faz questão que eu me sinta assim.


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Querido diário,

Vou ser bem sincera com você: acho que estou namorando. Não é incrível? Quem diria que aquele garoto de quem eu tanto falava aqui iria se apaixonar por mim, hein? Hahaha. Estou muito feliz mesmo. A gente se dá tão bem, ri junto, brinca o tempo todo e quando se ama, a gente se ama de verdade. É mágico. Acho que eu sou a namorada mais feliz do mundo. Está vendo? Já estou até assinando como “namorada”.



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Querido diário,

As coisas não estão indo muito bem não. Não queria te incomodar outra vez com meus problemas, mas só você me entende. Meu namoro está em crise. A gente se ama muito, isso é fato. Mas comecei a achar que só “o amor resolve tudo” é coisa de novela... Por que ele não foi meu segundo namorado, hein? É sério. Meu segundo amor. Por que ele não apareceu depois, quando eu fosse mais velha, mais experiente e pronta para viver com ele de verdade? Por quê? ... Porque sim não é resposta, diário. Porque sim não é resposta.




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Quarta-feira, Novembro 05, 2008



Diálogo 2.


- Nossa. Há quanto tempo.
- Camila?
- Sou eu mesma André.
- Poxa, que bom te ver. E quem é o pequeno?
- Caio. Meu maior presente desse mundo.
- Ele é lindo mesmo.
- Caio, filho, vai lá brincar no parquinho. Mamãe já te chama.
- Muito fofo. Posso te convidar pra um café?
- Pode, claro.


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- Você não tinha esse direito.
- Desculpa, eu sei.
- Como ‘desculpa’? Já se foram cinco anos. Como recupero isso?
- As coisas estavam tão confusas... e, e depois o tempo foi passando...
- Desculpa, mas não tem desculpa.
- Eu sei.
- Ele sabe?


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- Pai, posso te perguntar uma coisa?
- Claro.
- Como era a mamãe?
- Já te falei tantas vezes.
- Quero saber de verdade... diferente do que a tia Lu e a Vó falam.
- Tem alguma que você quer saber em especial?
- Por que vocês não ficaram juntos?
- A gente já não funcionava antes de você nascer.
- Mas você se arrepende?
- Como assim?
- Se soubesse que... digo, você teria feito diferente?
- Todo dia eu penso nisso...
- E...?
- E não. Não teria feito diferente.

Segunda-feira, Outubro 27, 2008



Palavra


Cheguei de madrugada e lá estava ele, deitado no meu quarto. Respiração tranqüila, semblante de um dia daqueles. Lindo, mais do que nunca. Deitei em silêncio, e enquanto minha respiração entrava no ritmo da dele, adormeci com um sorriso no rosto.


Acordei pela manhã e ele não estava mais lá. Desci rapidamente, procurando ouvir sua voz no andar de baixo da casa. Segui o doce timbre até a sala de televisão, e lá estava ele; ainda mais lindo sorridente. Ao me ver, parou de falar, encarou-me olho no olho e sorriu. A partir daí, saiu correndo pela casa, me levando pelas mãos. Parava o tempo todo e apontava para as coisas, me mostrando que sabe o nome delas todas. Cadeira, cadeira, pedra, carro, teofone. Passei a tarde inteira com ele, brincando, correndo, e descobrindo que tudo tem um nome. E que é tudo descobrir cada um deles.


A gente se divertiu um monte, junto e separado. Ele se diverte sempre, eu tento seguir o exemplo. Garanto que fiz do meu fim de semana o mais especial possível. Sempre o é quando volto para lá. Busco palavras para descrever a sensação de estar com quem a gente ama, depois de algum tempo sem estar. Procuro qualquer coisa que defina o que é reviver um bom momento. Invento termos que expliquem o valor de imaginar como seria aquilo que não é.


Não ia para casa há algum tempo, e mesmo quando ainda morava ali, já não olhava as coisas com o mesmo olhar. Era um olhar acostumado, entediado, sem graça. Um dia depois, preso sem ônibus na rodoviária, realizei que graças a uma delas, descobri de novo a minha vida. Cadeira, cadeira, pedra, carro... E a falta que me faz cada palavra.




Segunda-feira, Outubro 20, 2008



Auto-metalinguagem


O cursor pisca incessantemente na página em branco do computador. Preciso de um texto novo. Por mim, pelo blog, enfim: porque sim. Não que a fonte tenha secado, mas é difícil escolher o que dizer e ter tempo suficiente; às vezes. Principalmente quando tudo gira em torno disso. Por mais que a gente ame, cansa. Aliás, só acontece com literatura?


Muitas opções, idéias, coisas que vivi, coisas que podem encher as linhas que se seguem de forma literal, ou ao menos, influenciarem alguma ficção ou fantasia. Coisas e mais coisas. Tantas e tão poucas realmente novas (ainda não divididas) que tornam difícil a escolha. Aliás, só acontece com literatura?


Mais complicado que a escolha em si é abraçá-la até o fim. É. Com os dois braços e trazer para perto do peito – e com ela ir até aonde for, até onde ela te levar. Escolhe uma, larga. A outra vai mais adiante, mas não vê graça. Odiei esta terceira. Quarta? Ficou pessoal demais. Quinta, sexta, sétima que já se mistura com histórias de terceira. Não, não e não. Aliás, só acontece com literatura?


Um desfecho. É preciso do final. Eu preciso de um. Todos os que esmaeceram até aqui não contam. Não que não contem; contam. Mas não totalmente. Fim é fim e ponto final. Sei que estou quase chegando lá, dá pra sentir o último dos pontos. Até o próximo: é o fim; desta vez. Aliás, isso não acontece só com literatura.




Quinta-feira, Outubro 16, 2008



From: Fernando C. Tardivo
To: Carlos
Date: Fri, Oct 10, 2008 at 09:03 PM
Subject: Idéia




Chefe,

Tenho uma idéia para a agência: que tal se todos os funcionários trabalhassem dia sim, dia não?
Em forma de revezamento, obviamente, a equipe estaria motivada todo dia. Pois todo dia de trabalho seria uma sexta-feira. Repare no clima ameno e descontraído das sextas. E o porquê? Porque no dia seguinte ninguém acorda tarde, ninguém fica preso na agência até altas horas, ao contrário: todo mundo sabe que vai se divertir. E a diversão será tamanha, que só a idéia e o planejamento de concretizá-la já divertem.

Mais do que isso, ao voltar para o trabalho no “dia sim”, estaríamos descansados e empolgados, graças ao “dia não”.

Pense nas possibilidades, visualize o sorriso no rosto da sua equipe!
Matematicamente falando, pouco muda: em sete dias, a alternância gera três folgas. Um dia a mais de descanso e muito resultado a mais para a agência.

A propósito, hoje é meu dia não. Qualquer coisa, me procure amanhã.


Att:
Fernando Tardivo

Terça-feira, Outubro 07, 2008

Memória curta

- Mas você vai hoje?
- Claro... não tem porquê ficar.
- Passa mais essa noite. Amanhã cedo você vai.
- Não, prefiro ir hoje mesmo.
- Tudo bem. Já sabe pra onde vai?
- Não, qualquer coisa durmo num hotel.
- Bobagem...
- Você viu meu DVD do Brilho Eterno?
- Acho que a gente emprestou pro Pedro. Não foi?
- É mesmo. Depois eu pego então.
- Olha, esse edredom é seu.
- Tô levando o outro, e você não tem nenhum.
- Eu passo numa lavanderia e te devolvo depois.
- Não precisa. Fica.
- Fica você.
- Já disse que tô indo.
- Olha que eu não vou pedir de novo.
- Tchau, André.


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- Você vai ficar quieto o jantar inteiro?
- Pra não falar merda, prefiro não falar nada.
- Como você é estúpido.
- Tá vendo? Você devia ter feito o mesmo.
- Infelizmente eu não tenho doze anos e prefiro resolver as coisas.
- Resolver o quê?
- Você só pode estar brincando.
- Eu não vejo motivo pra essa conversa. Eu tive um dia de merda, você também. A gente discutiu e pronto. Agora a gente come, dorme e amanhã está tudo bem.
- Só se for no seu mundo idiota.
- Ei, aonde você vai? Camila?


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- Essa cadeira está ocupada?
- Ainda não...
- Ótimo. Sabe que o seu sorriso devia ser proibido?
- Não... Por quê?
- Porque é uma covardia! Perto do seu, os outros parecem choro,
resignação.
- Que exagero, meu Deus.
- Xiu... Não fala nada: é só sorrir.
- Nossa. Você é doido.
- Tchau pra você também, viu? A gente se vê numa próxima? ... Garota?!


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- Fecha os olhos.
- Por quê?
- Fecha, vai. É um presente.
- Tá bom... O que é?
- Calma. Se você adivinhar, eu pego.
- Como, doido?
- Você vai adivinhar, tenho certeza.
- Hmm... é um CD?
- Quase.
- Um DVD.
- Isso! Agora vem a parte fácil. Qual?
- Ah, eu não acredito que é o... mas você disse que...
- Esquece o que eu disse. Só sorri.
- Eu sempre caio nessa, né?
- Não agüento o seu sorriso. Fico bobo. Péra que vou eu trazer.
- Eu sempre acho fofo. Vem logo. Posso olhar?


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- Ei, acorda. Acorda.
- Hmm. Que foi?
- Nada. Só queria dizer que te amo.
- Assim, do nada? De madrugada?
- Acabei de lembrar que não falei durante o dia.
- Eu também te amo, linda.
- Pra sempre?
- Sim, pra sempre.
- Não gostou que te acordei. Por que levantou?
- Vou beber água e volto.
- Volta mesmo?
- Eu sempre volto.


Segunda-feira, Setembro 29, 2008




Uma constatação visual: quanto mais uma pessoa tenta se mostrar, mais ela se esconde.




Segunda-feira, Setembro 22, 2008



O síndico


Seu Torquato sempre foi um homem de poucos amigos, colecionador de inimigos. Por onde passa, faz uns dois ou três. Atendente, garçom, gerente, manobrista, enfim, basta ter algum tipo de contato com ele para ser tomado por um sentimento de completa aversão.



Aqueles que o conhecem há mais tempo já nem ligam mais. “Ih, o Seu Torquato? Esse aí é assim mesmo.”. Contador de profissão, é um homem sistemático, praticamente matemático; em tudo que faz. Sua sensibilidade se assemelha à de um avestruz e lida com gente como lida com os números. Para economizar o condomínio de onde mora, decidiu nomear-se síndico: felicidade dos moradores mais Caxias e total desespero dos porteiros e vizinhos moços.


Não há nada pior para uma pessoa como Seu Torquato do que dar poder a ela. Na posição de síndico, Torquato é implacável. Vive inventando regras novas e seguindo as anteriores com religiosidade indiscutível. Uma das normas mais recentes proíbe qualquer morador de contratar uma diarista que não tenha passado por seu crivo. Para usar a piscina, as visitas precisam necessariamente passar a noite na casa de seu anfitrião, pois assim, são consideradas hóspedes. Não cabe aqui transcrever a ata completa da convenção do condomínio, mas as duas acima ilustram o conceito.


Seu Torquato volta do escritório diariamente às 17:45h. Estaciona seu Ford Escort numa vaga “m” (sim, as vagas são divididas pelo tamanho do veículo: “p”, “m” e “g”), desce no térreo para perguntar ao porteiro os acontecimentos do dia – perguntar aqui é um eufemismo. Entra em seu apartamento e, com toda a delicadeza e romantismo, cumprimenta sua esposa. Esta, por sua vez, trata-o com desdém superior àquele que utiliza com o papagaio que o casal cria.


Torquato, ressentido, tranca-se no quarto e abre algumas planilhas. Nada como alguns bons números para lhe trazer o humor de volta.

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

O Big Ben é nosso.




Vocês já devem ter ouvido falar do super-experimento científico que está acontecendo nesse exato instante, bem no coração do velho continente. Estou falando do acelerador de partículas, que pretende simular o início do universo: onde tudo começou. Quem somos? De onde viemos? (Excluindo apenas o ‘para onde vamos?’), todas as perguntas vitais prometem ser respondidas, ou ao menos, confirmadas.




Tecnicamente, estamos falando de 28 quilômetros de tubulação ultra-moderna, em formato circular. Fica na Suíça, junto da fronteira com a França, e foi construída embaixo da terra, cem metros abaixo para ser exato. O experimento irá fazer dois feixes de prótons correrem em direções opostas, na velocidade da luz. Atraídos por imãs gigantes, estes feixes irão se aproximar, até se chocarem, causando nada mais nada menos que um pequeno big ben, cuja real conseqüência ninguém soube afirmar ao certo.




A propósito: o experimento todo está sendo acompanhado por mais de dois mil cientistas e custou dez bilhões de dólares. Curioso. Antigamente as grandes descobertas aconteciam pelas mãos de algum gênio (ou maluco, na maioria dos casos, as duas coisas) trancado num porão.


O que vocês humanos não sabem é que esta mini-explosão irá iniciar uma reação em cadeia histórica. O mundo em que vivemos será sugado por um buraco negro criado por nós mesmos. E não pára por aí: o universo todo também será atraído, causando uma nova (e muito maior) explosão atômica. A ela, um dia chamaremos Big Ben. O verdadeiro, o único, primeiro e último.


Eu tentei avisá-los. Em vão. Todas as minhas cartas, e-mails, muitas vezes endereçados a políticos e líderes do país, foram todos ignorados. Não consegui alertar ao mundo que o Homem, ao tentar simular o início de tudo, estava criando-o. A evolução vai começar outra vez: o resfriamento dos astros, as primeiras formas de vida, o surgimento dos macacos, enfim... Após bilhões de anos, estaremos todos aqui outra vez, assistindo – pela TV – ao maior experimento científico do século.


Torço para que vocês tenham feito tudo que sempre tiveram vontade em suas vidas. Acredito que vocês fizeram as escolhas que achavam certas, mesmo que às vezes tenham acabo erradas. Vocês foram felizes, viveram em busca da tal felicidade, do amor, amizade, compaixão e liberdade. Deram risada, fizeram cagada, saíram na chuva, beijaram no escuro, amaram, e como amaram...


A vida sempre esteve aí, e a todos que a viveram: não tenham medo. Mesmo que demore um pouco, vocês viverão tudo outra vez.


Sábado, Setembro 06, 2008

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão

Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria

(Cazuza)

Quarta-feira, Setembro 03, 2008





Cotidiano



Uma escada. Três andares separando seis lances de degraus, entre uma porta e outra. Por dia, são duas travessias; no mínimo. Carregando a si próprio e o peso do dia-a-dia; no mínimo. Bagagem, compras ou volta de balada dobram a dificuldade. Mas nada me tira mais do sério do que chegar lá embaixo pela manhã e aí me lembrar da chave do carro.


Estacionar. Parece que o grau de dificuldade em arrumar vagas perto do trabalho piora todo dia. Chegou depois das nove, esquece: vai ter que andar. Outra briga curiosa acontece no horário de almoço: todos os carros voltando antes das duas, atrás do melhor lugar.


Café. Em média, uns quatro por dia: dois de manhã, mais dois à tarde. O melhor é o primeiro: logo de cara, quentinho, desce perfeito. O seguinte geralmente está frio, ruim, mal coado, ou simplesmente não está. Acabou, e a coitada da garrafa térmica tosse umas gotas frias no copo plástico. Durante a tarde, idem. Começa bem e vai piorando ao longo das horas. Café. Há quem diga que faz mal, excitante dizem. Viciante, digo.


Mas que sono. Acordar é sempre difícil. Os dez minutos a mais que passam em segundos e parecem só deixar mais sono em seu lugar, as terríveis primeiras horas que sucedem o almoço e é claro, a noite que chega acusando-te por ainda estar de pé.


Mais um dia se passou. Vinte e quatro horas de um total de seiscentas mil que imagino poder viver, tempo para fazer tudo que eu me propus a fazer e ainda não fiz. Não hoje. Um agravante: além de não terem sido úteis para realizar o que já sonhei, essas vinte e quatro horas foram mais que suficientes para crescer meus sonhos e desejos. Vou me aproximando do fim (de outro dia) e me afastando desta lista – que um dia, pequena e inocente, era tão certa quanto o sono e os cafés de amanhã.








Terça-feira, Agosto 26, 2008


De novo outra vez



Já dizia o poeta: todo grande amor só é bem grande se for triste. E não é que é verdade. Precisa passar por todas as etapas possíveis, com a maior intensidade possível. O ser humano procura isso inclusive. Já que foi intenso até agora, que seja até o final.


Falar de fora, como sempre, é muito fácil. Ainda mais quando se tem experiência de causa devidamente cicatrizada. O perigo é viver a situação. Pois a mesma pode se transformar numa busca infinita. Estamos sempre atrás do novo de novo. Para se viver um grande amor é preciso ver a amada como à primeira namorada. (Ponto para Vinícius outra vez). E a gente tenta, e vê e vive... Mas uma hora termina. Transforma-se em coisa nova, ou simplesmente acaba, vai sumindo aos poucos, virando indiferença ou dor. Desaparece enfim, mas não porque acabou, e sim porque se gastou; sem cerimônia nem pudor. Sem medo que um dia acabasse.


Muitas vezes, esbanjar o que se conquista é ótimo. É a forma máxima de aproveitar o que se ganhou. Infelizmente dura pouco, e o vazio restante é inversamente proporcional à plenitude anterior... Falar de fora, é fácil. Por isso falo: o vazio vai deixar de ser vazio. Mas cuidado: se buscares o que um dia teve, não encontrarás nada de novo. De novo.


Sexta-feira, Agosto 15, 2008


O que não vi


Sabem aqueles filmes sempre presentes em nossa vida? Não sempre no sentido literal, mas vez ou outra, acabam aparecendo. Nos comentários pré-estréia, ganhando posições na bilheteria, lançando extras no DVD, enfim, vocês conhecem o tipo; até passar no SBT, ele já passou de todas as formas possíveis, mas você não viu... Isso aconteceu comigo.

Desde que estreou em minha vida, teve vários tipos de papel. Uma vez, quando já estava em seus primeiros dias de TV a cabo, dei a sorte de topar com ela – ao ligar a HBO num domingo de ressaca. Comecei a assistir, e juro: era interessante como eu pensava, como sempre intuí que fosse! Mas tudo acabou com uns amigos dizendo que passariam para me buscar. Minutos depois, eu me despedia (com a revista aberta), prometendo me lembrar da programação...

Os amigos daquele dia tenho até hoje. E com orgulho. Conseguem ser mais importantes do que antes, indispensáveis mesmo. Quanto ao filme, e à história que tinha a me oferecer, ainda não vi. Não vi se era emocionante demais ou de menos, se iria me fazer rir... Quiçá fosse até meio sem graça. Mas esta opção, por toda a minha intuição e toda crítica, era sempre derrubada.

Aluguei em DVD certo dia, é sério. Dois dias inteiros para assistir. No primeiro, confesso que fui um pouco displicente. Não por desinteresse; confiança excessiva mesmo. O seguinte foi passando, e a minha chance se esgotando...


Fico triste e até um pouco decepcionado com um misto de irritado, quando lembro dessa história: eu, no trânsito dessa cidade, a caminho da locadora. Devolvendo o filme que ainda não vi.

Segunda-feira, Agosto 04, 2008







nós




Ele é seu, nosso.
Vosso...
Posso?


É uma coisa, que,
sem querer:
Causa um negócio.


É lindo,
leite ninho, mas bem que prefere
um danoninho.


Sorri sem querer.
alegra o viver ...
tem que conhecer!


Feliz de quem cruzar...
João, sempre a brincar.
Não finjo, não corro, não nego.


Um dia,
que há dias espero.






Sexta-feira, Agosto 01, 2008


O gordinho mais simpático da Tijuca



Sempre ouvi falar que Tim Maia era um porra-loca de marca maior. Drogado quase sempre, reclamão nos shows, isso quando ele cumpria a agenda. Bom, agora que terminei Vale Tudo. O som e a fúria de Tim Maia, posso afirmar: ele é tudo isso e mais um monte.


Sebastião Rodrigues Maia era nada mais nada menos que o décimo oitavo filho de Altivo e Maria Imaculada Maia. Detalhe: o casal teve dezenove rebentos. Coincidentemente ou não, eram donos de uma pousada – só os moradores já lotavam as mesas nos horários das refeições. E aí começa uma importante característica de Tim: o apetite. Seu pai cozinhava como poucos, e a pobre Maria Imaculada não conseguia entender como um garoto de doze anos podia comer cinco bifes.


Na infância, era amigo de Erasmo Carlos e entregava as marmitas caprichadas de seu pai, que garantia uma renda extra. (As marmitas sempre chegavam mais leves do que saíam.) Anos depois, cansado e gordo, resolveu ir para os Estados Unidos, com apenas dez dólares no bolso. Eu paro por aqui, estou dando uma de Nelson Motta e nunca chegaria na qualidade do livro e estamos num blog; ninguém tem saco pra isso. O que quero dizer é que Tim Maia era mais do que maluco, era de outro planeta.


Suas músicas, muitas vezes com letras incrivelmente simples, eram sucessos estrondosos. Os arranjos e a banda (famosa Vitória Régia), estes sim, eram pra lá de rebuscados. Como ele próprio descrevia, seu som possuía duas vertentes: mela-cueca e bate-sovaco – Azul da cor do mar e Vale tudo, só pra ilustrar. Houve também o período da Cultura Racional, quando o doido ficou mais doido ainda e aderiu a uma seita que pregava a energia racional, entre outras doideiras, como prepararmos a terra para a vinda dos extra-terrestres. Guiné Bissau, Moçambique e Angola é dessa época. Mesmo sem ninguém entender nada do Racional Superior, a música foi sucesso daqui à África.


O mais legal da história desse monstro da Mpb é talvez a liberdade pura com que vivia. Idi Ego em pessoa. Fazia tudo que queria, quando queria e como queria. É claro que muita gente odiava e causava muitos problemas, mas por outro lado, era autêntico e amigo de verdade. Entre os bauretes, misto-quentes e triathlons, havia amor. Não queria dinheiro, não se importava com isso. Morreu praticamente falido, inclusive. Ele só queria amar. E após fechar a última página, garanto: amou.

Quarta-feira, Julho 23, 2008

eu

Me sinto só
mas não só.
Me sinto bem também,
mas tão bem!


Acho que agora é a hora...
a hora que se quer toda hora.
Agora, não se vê noite afora
a hora de não sermos agora.


Me sinto só,
mas não só.
Me sinto bem também,
muito bem.

Escrevo sem opção;
escrevo na contra-mão.
Escrevo o que quero, senão:
minha escrita pode morrer em vão.


Cansei de tentar rimar;
cansei de me preocupar.
Por mais que eu fuja da métrica,
ela sempre há de ficar.
(é estética!)


Já disse que me sinto só, sem estar.
Sem televisão, sem sala de estar.
Olho essa tela em branco,
vejo lá dentro:
encanto.


Me sinto bem, tão bem
que sinto o bem que só faz o bem.
Sinto o presente, lembro o passado.
E no futuro, eu quero ganhar dobrado.


Me sinto só,
mas não só.

Eu me sinto bem,
mas tão bem!

(...)

Terça-feira, Julho 22, 2008



Nunca para sempre


Aeroporto, quase três da manhã. Ele olhava freneticamente para o relógio, de dez em dez segundos. Ela preferia a janela; observava tristemente as gotas da fraca chuva que rolavam pelo vidro, com alguma movimentação de aviões desfocados ao fundo. O assunto havia acabado desde que se sentaram ali, à espera do inevitável vôo. Tanto para falar, e nada para dizer. Lembravam tudo que já tinha sido dito, e do nada que devia ter sido. Apenas esperavam. Ele se lembrou do bar em que chegaram juntos quatro horas antes.


Seria hoje, tinha que ser hoje. Aliás, havia demorado. Chegaram só os dois, no mesmo bar de sempre, com uma sensação completamente nova. Ambos sabiam que o lugar era o de sempre, mas a ocasião era a do nunca mais. Cada minuto mágico, e trágico. Os dois se divertiam, brincavam, conversavam, como sempre. E o tempo passava mais rápido do que nunca. Pediram a saideira. Degustaram momentos lindos do curto tempo que passaram juntos. Nunca uma longneck durara tanto.


Começavam as despedidas. Ela abraçava os garçons e garçonetes do bar, inclusive o dono; eles já eram de casa. Ele também se despediu, mas formalmente. Em breve estaria ali outra vez. Seguiram de táxi para o aeroporto, ainda rindo e brincando. Não tiravam os olhos um do outro, queriam registrar aquela imagem. Se fosse preciso, queimar até as retinas. Não podiam esquecer um do outro jamais.


Por um momento, ele pensou ter visto uma lágrima escorrer. Não. Era apenas o reflexo de uma gota no vidro que ela ainda encarava. Respirou fundo e ia começar a falar, quando o aviso da companhia aérea o cortou. Ela se virou e sorriu. “É isso então”. Dessa vez, ele não teve forças para encará-la. Levantou-se e fez questão de carregar a bagagem. Ela levava a passagem e o coração nas mãos. Não havia filas. Foram andando calmamente, respirando na mesma freqüência, como sempre. Torcendo para que o corredor não chegasse nunca.


O abraço durou uma eternidade para a atendente que via tudo. Para eles, um piscar de olhos. Ela se virou a caminho do corredor, mas ele a deteve. Os olhos dela brilharam e encararam os dele como sempre, como nunca mais iriam encarar. Colocando um envelope em sua bolsa, ele disse: “Quem sabe numa próxima vida, hein?”. Seus lábios quase tocaram os dela. Quase.


Ele se sentou na mesma janela em que ela estava há pouco tempo, enquanto dentro do avião, ela acabava de se acomodar. Lágrimas e gotas escorriam pelas janelas. Ela abriu o envelope e enquanto lia, deixou escapar em voz alta: “quem sabe...”.



Sexta-feira, Julho 18, 2008



Declaração de amor.


Lá vou eu dissertar sobre a Califórnia outra vez. A Califórnia Brasileira, claro; bela e calorosa Ribeirão Preto. Dia a dia me apaixono mais por essa cidade. Tudo aqui tem um jeito próprio de ser, desde as inúmeras praças, tranqüilas avenidas, bares sempre lotados, pessoas e seu jeitinho de falar, enfim, tudo mesmo.

Os bares pegaram a moda da Terça em Dobro lançada pela AmBev há um tempo atrás, e ao contrário do que os botecos de São Paulo fizeram, aqui continuaram a promoção por conta do dono. E mais do que isso, pegou tanto que todo dia é dobro de alguma coisa em algum lugar. O problema vai ser o dobro de gente perdendo o dobro de carta. Ah, até o número de bafômetros disponíveis pela polícia dobrou: agora são dois!

Avenida Nove de Julho. A daqui ainda é de pedra. Aquelas pedras escuras e irregulares, ideais para quebrar saltos-altos. Foi a primeira via que deixou de ser de terra, mas também não quis saber do asfalto. Ainda bem, seu charme está aí e no canteiro central, cheio de árvores. Quase totalmente comercial, na Nove se encontra de tudo. Todos os bancos e muitas empresas, por exemplo, estão nela; é a Paulista ribeiraopretana. Mas esta aqui cruza com duas outras importantes avenidas. Entre elas, a Avenida Independência. Digamos que a esquina das duas é a nossa Ipiranga com a São João. Resumindo: imaginou a esquina mais famosa da cidade no meio da Paulista? É por isso que a Nove é a Nove. Alguma coisa acontece...

Chegou a hora de falar de gente. Estamos no interior, fato. Mas o sotaque quase não se vê. Ele é mais carregado em pessoas que são de cidades próximas, que moram ou trabalham em Ribeirão. Sertãozinho, Bonfim Paulista, Monte Alto e Batatais. Ou então, nas pessoas mais velhas. Estas ainda carregam nos erres e falam cantado, com a frase diminuindo de volume, até desaparecer, antes de acabar a última palavra.

Os filhinhos de papai folgados, que nós paulistamos intitulamos agro-boys, existem sim. Num número maior do que eu gostaria, mas por sorte não são maioria. Mas não quero falar deles. Quero falar de pessoas boas, alegres, que me receberam (e ainda recebem) tão bem. Gente divertida, animada, que não tem frescura, mas que gosta do bom gosto. Gente como eu. Gente como você. Gente inteligente o suficiente pra saber que a vida é o momento. E num palco como Ribeirão, todo momento pede para não passar em vão.




Segunda-feira, Julho 14, 2008



Oito


Há quanto tempo não entrava naquela cidade? Oito anos. Lembrou-se nitidamente do dia em que foi embora, cheia de certeza que não voltaria nunca mais. Os estudos enfim terminados, ótimas perspectivas em sua pacata cidade natal, muito vontade de trabalhar, e um único ponto negativo: os amigos que tinha feito ficariam para trás. É a vida, acontece. Mas agora estava de volta. Será que os telefones continuam os mesmos? E as feições? Risadas?


Havia mandando alguns e-mails antes de sair e agora corria os olhos pelo computador da lan house, procurando alguma resposta. Havia uma, apenas uma; ao menos uma. Falava de um chá-bar. Um casal de amigos das antigas ia se casar. Chegando ao endereço marcado, um edifício de classe média cujo salão de festas já demonstrava a barulheira do evento, uma certa indecisão. Afinal, há quanto tempo não via aquelas pessoas, e também sentia culpa por ter sido um pouco displicente com eles; nunca foi muito boa em manter os contatos. Resolveu entrar com um sorriso no rosto.


Já na entrada do salão, sua melhor amiga da época. Dividiram apartamento e de uma forma ou de outra, foi sua principal confidente durante aqueles anos. Conversaram muito e pouco tempo depois já havia reencontrado praticamente todos. A maioria com cara de adulto, alguns casados e suas respectivas companhias, principalmente os futuros noivos, dois que ela nunca imaginara juntos. Faltava apenas um dos velhos amigos. Aliás, ela não tinha parado para pensar desde que voltara, mas era dele a maior parte da saudade que sentia.


Com ele, viveu uma pequena paixão. Foi um dos primeiros com os quais se identificara quando chegou. Aos poucos, a amizade virou romance, o romance ameaçou virar amor, e ela decidiu se afastar. O porquê nunca soube com certeza. Talvez medo de que algo realmente a prendesse por lá, ou simplesmente medo. É mais comum do que se pensa.


Foi se servir de um copo de chope quando ele entrou no salão. Estava diferente, mais velho, um pouco menos cabeludo, porém mantinha o alto astral e sorriso largo de sempre. Atrás dele, uma garota. Os dois de mãos dadas. Largou o copo e saiu por uma porta lateral, antes que ele a visse. Em menos de meia hora estava em casa, aos prantos. O porquê ela não sabia com certeza.


Ainda se recompondo em frente à TV, com um enorme pote de Häagen-Dazs nas mãos, escutou a campainha. Correu e ao abrir a porta, não soube disfarçar o susto de vê-lo ali, parado, olhando para ela. O brilho dos olhos dele refletiu nos lacrimejados olhos dela. Estes, por sua vez, brilharam com uma intensidade que não se via há muitos anos. Oito, mais precisamente.




Sexta-feira, Julho 11, 2008


Mutante


Aposto que vocês já ouviram falar em Os Mutantes, novela da Record que vem surpreendendo com bons números no Ibope. Mas talvez vocês ainda não tenham tido o prazer de assistir a um episódio. Garanto. Vale a tentativa. Sem juízo de valor, a novela é diferente. Diferente e tosca. Algo como o talento dos jovens aspirantes a galã de Malhação, com um toque de ex-globais que tentam elevar o nível das interpretações, e tudo isso ao redor de uma estória estapafúrdia entre o bem e o mal. Estapafúrdia, pois praticamente 100% das personagens são mutantes, tipo x-men. Além de vampiros, lobisomens, homens-cobra e outras bizarrices. Se tudo isso fosse esteticamente bem acabado, com bons efeitos visuais e cenários caprichados, poderíamos estar de olho num Heroes brasileiro. Mas não. É tudo da pior qualidade, onde um estacionamento apagado se transforma na cidade dos homens-formiga; só para citar um exemplo.


Há também os policiais. A Depecom. Uma espécie de grupo secreto especializado em combater as figuras citadas acima. Boa parte dos mocinhos está nesse grupo. Muitos rostos conhecidos que a gente não sabe o nome falando textos inacreditáveis. Por exemplo: Felipe Folgosi (ex-globo) está liderando um grupo do bem que tenta fugir do perigo. De repente, o chão começa a tremer e um urro é escutado. Felipe diz: “Calma pessoal, todos atrás de mim. Deve ser o Tiranossauro.”. Bianca Rinaldi, a protagonista, o corrige: “Não Beto. É um Velociraptor gigante!”. Nem mesmo Spielberg teve essa idéia. O defeito especial é tão tosco que a câmera fica poucos segundo na fera, para disfarçar seu péssimo acabamento.


Tem um cara fantasiado de Wolverine. Igualzinho, mas com um poder a mais: ele é vampiro também. Há leão pra lá, lobisomem pra cá. É tanto personagem que a gente nunca sabe quem é quem. Com exceção do grupinho do mal que está sempre numa mesma sala escura, planejando suas maldades. Entre elas, a explosão nuclear da avenida Paulista. Socorro! Leonardo Vieira, salve o mundo! Salve São Paulo. Me tira da frente dessa televisão!


Eu até entendo que um homem picado por uma cobra mutante comece a sufocar tudo que vê pela frente. Juro que entendo. A única coisa que não me entra na cabeça é o subtítulo da novela: Caminhos do Coração. Quê?! Talvez porque os mutantes também tenham coração. Ou então são os etês que prometem aparecer nos próximos episódios, vindo diretamente de Atlântida, em busca de um ataque fatal, bem no coração do planeta Terra. É ver pra crer; ou não.



Confiram algumas pérolas e vejam que eu estou falando sério:







Terça-feira, Julho 08, 2008


Paradoxo sem fim


Paixão é o que nos move. Quando a paixão vence, e o objeto da paixão por ela se apaixona, duas coisas podem acontecer: o fogo apaga, mantendo uma fina brasa em busca de novas paixões, ou o fogo cessa, e se materializa na forma sem forma mais linda que se tem notícia; se transforma em amor.


Amor é o que nos une. Quando o amor se espalha, e o fruto amado também ama, uma coisa pode acontecer: êxtase, paraíso, sublimação, arrebatamento, encanto.


O encanto vive a encantar, e do encantamento em si, vive-se a plenitude, por um tempo. Tempo que mina o paraíso, enquanto o encanto desaprende a encantar. Novidade sem nada de novo, e o encanto desencanta; Quando o tempo vence o encanto, duas coisas podem acontecer: o amor canta um novo encanto, ou se transforma em sua forma sem forma mais triste que se tem notícia; se transforma em dor.


A dor, de tanto doer, chega a arder. E de tanto arder, se transforma em brasa; uma fina brasa em busca de paixão. Novos ares encontrarão essa brasa, e quando dela novo fogo se acender, duas coisas podem acontecer.




Quarta-feira, Julho 02, 2008




Danado



Ganharam um passarinho. Lindo, pequeno e frágil. Muito frágil. Passarinho novo é assim mesmo; não faz nada sozinho, mesmo querendo fazer de tudo. Mas era lindo, como era lindo o danado. Por mais que alguns dissessem: “pássaro novo é tudo igual”, eles sabiam que não. Esse era diferente, lindo, nosso... dele.


Aos poucos, os cuidados mudam. Diminuem, de certa forma. Mudam porque é assim que tem que ser, porque é assim que sempre é. Deixam o passarinho ficar solto, observam de longe, vêem-no cambalear... cada movimento é puro, novo, repetido, e lindo. Como é lindo o danado do passarinho.


Passa um tempo e o danado arrisca uns vôos-solo. Vai e volta; logo. Nunca pra muito longe. Às vezes precisam buscá-lo... (...) Cresceu o passarinho, o danado continua lindo que só ele. Descobre novos céus - céus só dele, e eternamente nossos. Mas volta, sempre volta; precisa vir pra ir outra vez.


Quando menos se espera, o passarinho já sabe voar longe, bem longe. Mas não vai. Ou pelo menos, não por inteiro. Tem medo de se afastar, precisa deles. Quer dizer: precisar não precisa, tem é medo de não precisar. Precisa não ter este medo, sabe que deve se afastar. Eles também temem, temem que o longe seja longe demais. Sabem que precisam deixá-lo ir, pois só assim ele irá com vontade de voltar. (Ele vai voltar)... e então, enquanto ele voa, sumindo no horizonte, só lhes resta sorrir. Porque ao vê-lo subir, se misturando com esse céu enorme - dele e só dele, danado, como fica lindo o passarinho.




Quinta-feira, Junho 26, 2008

do blog antigo, ressuscitado agora

Frases D Efeito.


Fiat Stilo. Ou você tem, ou você não tem. Quem nunca ouviu esse slogan levanta a mão. Como eu sei que ninguém levantou, vou comentá-lo assim mesmo. É o mais óbvio e imbecil dos slogans dos últimos tempos. Claro que, ou você tem, ou não. Ponto. Ah, sim. Estão falando do outro estilo, aquele que as pessoas mais in, transadas têm; quase sempre relacionado à moda, lembrou? Pois então, mais uma vez o slogan é uma merda. Porque esse “estilo”, com o qual eles criam o duplo sentido da frase, é totalmente relativo. Pede pra um cara que é estiloso, sucesso absoluto do clube de RPG, entrar numa baladinha hype na Vila Madalena. Tem ou não tem estilo? Sei lá, olha na garagem dele.


Pêlos, por que tê-los? Outdoor, por que fazê-los? ... Por incrível que possa parecer, a primeira sentença deste segundo parágrafo assinava toda a comunicação outdoor da clínica estética Onodera. Mais incrível ainda foi a piora da idéia, como se fosse possível, através da imagem: uma cena "normal" de se ver ampliada nas ruas, na qual uma mulher depila a própria axila com gilete. Até aí, "tranqüilo". O problema mesmo é que a área aonde, teoricamente, passarra a gilete, transformara-se em cacto. Juro por Deus. Uma mulher passa gilete no sovaco, deixa a pele igual a cacto, faz uma expressão (falsa) de dor, e se pergunta: Pêlos, por que tê-los?... Acho que a idéia da Lei Cidade Limpa nasceu aí.


Da nova safra de terríveis slogans, escolhi um: "Gradiente. É bacana." É bacana, eles dizem. Bacana?! Mas qual a idéia, meu Deus? Na melhor das hipóteses, bacana é apenas bacana; nada mais. Ou então, a campanha da Fanta. Beba Fanta e fique Bamboocha. É em Bamboocha que a gente encontra lactobacilos mais vivos que os lactobacilos dos outros? ... E o danoninho, hein? Que nojinho. Comer um queijinho, com sabor de moranguinho, mas veja só: vale como um bifinho!



Segunda-feira, Junho 23, 2008


Ainda



Toda vez que a gente conversa, eu gaguejo. Ela não sabe, mas minha respiração muda e chego a errar letra de música que sei de cor. Meto os pés pelas mãos, troco as palavras, pareço um bobo, quando o que eu mais queria era parecer justamente o contrário. Não sei se ela percebe, não nos vemos tanto assim e tudo é muito recente. E dessa vez quem não sabe sou eu, mas alguma coisa de repente me fez vê-la de um jeito diferente. Ela não sabe que agora eu tenho pensado tanto nela. Sabe que eu existo, isso sim. Mas não sabe que comecei a imaginar como seria viver com ela.


Ela não sabe os carinhos que teria, todo dia. Os lugares que a gente descobriria. Desde aquele restaurante escondido, que só São Paulo tem, até algum boteco furreca, numa típica roubada em que a gente se enfia por ser a única opção de madrugada. Ela não sabe, mas a gente iria rir disso. Disso e de muitas outras coisas. Boas piadas, risadas quando não pode, só os dois no cinema, com a galera na balada, riso baixinho debaixo do lençol... pena que ela não sabe.


Não sabe que este texto é pra ela, talvez nem saiba que gosto de escrever. Muito menos que o que gosto mais é dela; gosto assim, de um jeito gostoso. Um gostar de verdade, sem pressa nem cerimônia. Um querer bem de toda forma e a qualquer momento. Ela não sabe que eu até já conheço o seu beijo, de tanto beija-la em pensamento.


Tenho certeza de que todas essas linhas são recíprocas, mas ela não sabe. Ainda não sabe.



Quinta-feira, Junho 12, 2008

Saudade


Morro de saudades. Saudade da minha infância, do pequeno eu, correndo pela rua, brincando na pracinha, descobrindo a vida em cada tombo, conhecendo a amizade em cada gol, e entendendo o carinho e proteção que os pais tem pelos filhos. Que saudade dessa época! Que saudade mequando eu entro em casa, e passo pela garagem. Hoje, são duas paredes. Mas basta fechar os olhos que elas se transformam no campo oficial de gol a gol; jeito ótimo para jogar bola quando há duas pessoas. Jogava gol a gol com meu avô, irmão, vizinho, até a Tia Bia entrou na dança.


Saudade da minha escola. Dos amigos e das brincadeiras pelo pátio. Das professoras do primário: Mônica, Cecília e Valéria. Por onde será que elas andam? Provavelmente continuam sua enorme responsabilidade de formar pessoas, justamente na época em que começam a ter discernimento sobre as coisas e formar opinião própria. Elas eram boas nisso. Aposto que estão ainda melhores hoje. Sinto saudades do colegial, das dúvidas sobre o vestibular. Saudade do não saber (e não precisar saber) o que fazer para o resto da vida.


A faculdade é outra danada que me enche de saudades. Tem muita gente que passou por ali nos mesmos anos de 2001 a 2004 que ficará pra sempre na minha memória e talvez nunca mais na minha frente. Saudade de vocês. Saudade de ir para o bar com vocês; o mais furreca deles. Afinal, a grana era curta e a sede, imensa. Saudades das viagens, dos amores e dos filmes que faziam parte da minha vida nessa época. Saudade da saudade que eu sabia que sentiria quando aquilo tudo acabasse. Essa, que eu sinto agora.


Meu primeiro emprego. Por incrível que pareça, também mesaudade. Saudade de me descobrir um homem, com responsabilidade e meu dinheiro meu de verdade. Outros empregos me fazem sentir ainda mais saudade. Pessoas bacanas, meus primeiros textos, minhas tentativas literárias no antigo blog, sempre que sobrava um tempinho entre um briefing e outro.


Indac Escola de Atores metanta saudade, mais tanta saudade que deixa de ser saudade e passa a ser vontade. E essa, assim que passa, tambémsaudade. Pessoas especiais, a emoção do aplauso, a dor e a delícia de amar. Obrigado Indac. Que saudade!


Sinto saudade de tudo e tanto que chego a ter saudade do que ainda não veio. Do que poderia ter sido e daquilo que um dia vai deixar de ser. estou com saudades da página de cima, de quando abri o Word para falar de saudade. E por falar em saudade...


Segunda-feira, Junho 09, 2008

Sonho


Nem consegui dormir a noite. Passei o mês esperando por esse dia. Pela manhã, a professora nos acordou muito feliz. Acho que ela estava feliz, não parava de sorrir. Pediu para que todos nós vestíssemos nossos uniformes e escovássemos os dentes. Pouco tempo depois, todo mundo fazia festa no ônibus, comia o lanchinho e não via a hora de chegar no parque.


No caminho, mais instruções das professoras. “Fique sempre de mãos dadas com os tios e tias”, “obedeça tudo que eles falarem”, “se vocês se perderem, entreguem o bilhete que está no bolso de vocês para o primeiro adulto que vocês encontrarem”. E outras coisas que a gente tava careca de escutar.


Quando a gente chegou, a confusão foi grande. Um queria sair do ônibus mais rápido que o outro, mas os professores conseguiram fazer uma fila. A entrada do parque fica no alto, e dá pra ver os tios e as tias embaixo, esperando a gente. Nem a gente, nem eles, sabem com quem a gente vai ficar. A hora que a gente chega embaixo, um outro tio, da mesma idade que a professora, escolhe com que tio (ou tia) a gente vai ficar.


Eu olhei pra baixo, para aquele monte de tios e tias, e escolhi um. Não que eu tivesse como escolher, mas eu olhei para um e eu gostei do sorriso dele. Ali de cima, ele parecia ser muito legal. “Seria muito bom se fosse o meu tio”, pensei. Conforme a gente descia, meu coração batia mais forte. Acho que era nervoso, frio na barriga, não sei. sei que a vontade de brincar no parque estava enorme e eu quase não conseguia esperar minha vez.


Finalmente escolheram meu tio. Na verdade, era tia. Por muito pouco não me colocaram de mãos dadas com aquele tio que eu tinha visto de cima. Minha amiga, que vinha descendo atrás de mim, é que escolheram pra ele. Mas a minha tia era muito legal e foi me levando pra perto de uma outra tia que estava junto de outra amiga minha. De repente, o tio que eu vi de cima parou perto da gente, e chegou falando que todos nós íamos passar o dia juntos. O tio e as tias se conheciam e eu tirei a sorte grande: ia brincar com minhas amigas e com três tios muito legais.


Fomos em vários brinquedos, a gente até se molhou dentro de um barco que descia um rio. E depois a gente comeu um lanche muito gostoso e fomos brincar ainda mais. O dia passou voando, como um piscar de olhos. E sabe do que mais? O tio acabou andando a maior parte do tempo de mãos dadas comigo. Ele me explicava tudo que eu perguntava e disse que eu era muito esperta pra minha idade. Eu tenho seis anos e sei fazer purê de batata. O tio não sabe.


Na hora de ir embora, eu fiquei muito triste porque eu queria que durasse mais. E o tio e a tia me perguntaram várias vezes o quê que eu tinha. E eu não tive coragem de dizer a verdade, não queria deixar eles tristes também. falei que eu estava cansada. A gente se despediu dos três e eu juro que me deu um aperto no peito, mas consegui segurar o choro. No ônibus, voltando pra casa, eu e minhas amigas passamos a viagem inteira contando como tinha sido o dia uma da outra. O que o tio de cada uma tinha feito, qual brinquedo era mais legal...


Cheguei tão cansada que fui direto pra cama. Acordei assustada, no meio da noite, achando que tinha sonhado com o dia que passou. Mexi no meu bolso e achei a pulseira que o tio me deu. Fechei os olhos de novo, e abri um sorriso: tinha sido um sonho mesmo. Um sonho que eu jamais vou esquecer.




Sexta-feira, Junho 06, 2008


Mercado social


Na entrada de um deles, o que se é granito, grandiosidade, homens de terno, e um deles – este, de uniforme – empunhando uma arma; ainda presa à cintura, devo frisar. No segundo: , entulho, obras inacabadas (talvez destruídas), homens de roupa rasgada etc. Não vi ninguém empunhando arma alguma.


Antes que eu me perca e vocês também, vou esclarecer. O primeiro em questão é o Cidade Jardim Shopping: o mais novo reduto de compras de luxo, que tanto cresce em nosso país. E o segundo trata-se do Mercado Municipal de Pinheiros, no Largo da Batatareduto de camelôs, que sempre cresceu no nosso país.


Começo a caminhar por eles: Emporio Armani, Enoteca Fasano, Louis Vuitton, Reinaldo Lourenço, Venda do Tião, Carlos Carnes, Almeida & Almeida etc. Bom, no que diz respeito à mostrar proximidade com o cliente, o mercadão dá de dez. Os nomes do Cidade Jardim me passaram a impressão de que um laser me derreteria assim que eu cruzasse à entrada. no segundo, provei azeitona temperada, brinquei com a senhorinha japonesa e levei amendoim doce comigo. Um enorme pacote de amendoim doce por apenas R$5,00. Curiosamente o mesmo valor de uma truffa minúscula – uns 2cm de diâmetro – da “doçaria dos ricos”: Pati Piva. Não conhecia até ontem e garanto: vale a pena, viu? É um dos melhores doces que comi, e precisa ser rico se você quiser levar um pacote.


Numa área ao ar livre do mercadão, uma curiosidade: animais vivos. Porcos e aves, em gaiolas pouco limpas, prontos para virarem refeição à moda antiga. E em qualquer área do Cidade Jardim, várias peruas e muitos frangotes prontos para virarem comida à moda de sempre.


Por incrível que pareça, quando comecei esse texto, tinha a intenção (um pouco atépretensão política’) de ilustrar o paralelo brasileiro de classes. Queria dizer que apesar de estarmos tirando muita gente da miséria e permitindo que eles sejam clientes do mercadão, em contrapartida, nunca vi a classe AAAA++++ crescer tanto, em tão pouco tempo. Em cima do shopping, estão em finalização as obras de seis prédios residenciais. E o preço do apartamento mais barato é oito milhões de reais. Sete, se pagar à vista. Provavelmente mais dinheiro que o faturamento anual do mercado de Pinheiros.


Mas, depois de tantas coincidências, acabei concluindo que o primeiro e o segundo são praticamente iguais. Todas as regras de marketing, sociais, valores hierárquicos, desrespeito, bom-humor, eu, está tudo ali; nos dois. A diferença, como sempre, é o preço.






Segunda-feira, Junho 02, 2008


Cáeme



Um passeio pelo parque. Cachorros e crianças
brincam, adultos tentam queimar calorias alucinadamente. Eu não. Nem uma coisa nem outra. Quero sentir o verde, ter tempo e tranqüilidade para pensar numa história que preciso escrever. Meus editores já adiaram meu dead line duas vezes; a pressão é grande. Tenho comigo um caderno, uma caneta e a real esperança de que os ares do Ibirapuera clareiem minha mente. Vou para longe das bicicletas, patins, cães, quadras e procuro uma árvore tranqüila para me sentar. Sem muita demora, encontro uma. Logo começo a traçar as primeiras linhas. Ao contrário do que pensei ao escolher o parque, nenhuma idéia interessante. Giro a cabeça para trás, num gesto de ressentimento e percebo algo talhado na casca da árvore.


A curiosidade me faz sair da confortável posição e olhar atentamente para o que está escrito: k e m, com um coração em volta das letras. K? Seria Kátia, jovem apaixonada platonicamente pelo tio Marcelo? Sozinha, passeava pelo parque, escrevendo versos em seu diário... Ou então Karina, secretária amante do doutor Márcio, cujos encontros furtivos se davam no horário do almoço, sob as sombras das árvores do parque? E por que não uma história de amor comum – se é que histórias de amor podem ser chamadas assim – na qual uma moça e um rapaz, Kelly e Maicon, namorados desde sempre, selaram a paixão, escrevendo suas inicias no tronco que os apoiava em pleno sábado à tarde?


Outras histórias me vinham à mente. Marcos, Mariana, Mirela, Márcia, Kássia, Kleber, personagens viviam o começo, o meio e o fim de suas histórias em alguns segundos de passeio pela minha mente. Algumas trágicas, outras doces e alegres, casais de todas as idades, de todos os sexos, até mesmo uma provocação de dois adolescentes brincalhões podia ser o motivo daquela marca na árvore. A mais linda era a de um casal de idosos, que se reencontraram depois de muito tempo e reviveram o grande amor de suas vidas. Num passeio, ele talhou o mesmo desenho que fizera quarenta anos antes, e prometeu a ela passar por aquela árvore todo domingo, até o fim de sua vida, para lembrar e visitar seu grande amor. Pouco tempo depois ela faleceu, como já era esperado, e ele passou a cumprir sua promessa; todo domingo, contando-lhe as novidades e chorando baixinho na hora de se despedir.


Nunca saberei o real motivo, talvez nem os próprios K e M saibam em qual árvore registraram seu amor. Talvez eles tenham se esquecido. Talvez esse amor nem exista mais. Talvez K e M não existam mais... No meio de uma nebulosa chamada 'talvez', uma única certeza: a história escrita no meu caderno.















Quarta-feira, Maio 21, 2008


De pé e a sós


Quem ficar no mundo das idéias tende a ficar só. Sejamos realistas: se existe príncipe encantado e a mulher perfeita, eles se casaram e vivem felizes para sempre num reino far far away. Bom, está certo que muitos casais (principalmente os amantes de primeira viagem) se sentem na pele desses dois personagens no início do relacionamento. Enfim, esse é outro ponto que merece uma reflexão a parte. A bola da vez é a solidão. E os pés. Explico.


Todo pé cansado acha um sapato velho que lhe sirva; mas não aquele que lhe convém. Parece óbvio, mas eu sempre vejo (e não me excluo fora da amostragem) pés insistindo em sapatos que não lhe servem mais, ou ainda, que nunca lhe serviram. Não bastam as bolhas e joanetes colecionadas ao longo do tempo? Tem pé, que mesmo vendo seu objeto de desejo vestindo a outro, acha que o sapato ainda é dele. O que um pé desses tem na cabeça? Talvez seja mais fácil viver a ilusão de um sapato impossível do que dar o pé a tapa.


Existem aqueles que já deram um passo a diante e resolveram manter-se descalços para sempre. Ou porque atravessaram caminhos semelhantes aos do parágrafo anterior ou é tudo culpa de um pé na bunda. Seja como for, tomaram sua decisão e aparentemente vivem bem assim. Aparentemente, já que falam pelos calcanhares sobre o assunto. Sobre o sapato de um, o pé pequeno do outro, do quanto aquela comédia romântica pisou em seu calo. O que eles precisam fazer (e no fundo sabem disso) é por o pé pra fora, experimentar novos pares e andar outros caminhos. Aposto meu dedinho que esses pés descobrirão que far far away é mais perto do que se imagina, e irão concordar com aquele poeta que vestiu todo tipo de sapato antes de bater as botas:


A solidão é pretensão
de quem fica
escondido
fazendo fita



Segunda-feira, Maio 12, 2008



As Minhas Meninas


Tinha uns treze anos quando se apaixonou. Geni era o nome que o iniciou. Como não notara tal poesia antes, se perguntava; o problema é que nunca fora o único. Não demorou a perceber que Geni não podia ser sua. Geni era de todo mundo e ele, de ninguém. Mas acontece que apesar dela, e mais, graças a ela, o amanhã foi sim outro dia. Ele entendeu que existiam muitas outras, tão boas ou melhores que Geni.

A segunda lhe chegou. E ficou. Rita era perfeita, um pouco mais velha, madura, e talvez por isso, tão fundamental. Especial na forma e conteúdo, uma obra de arte, aos olhos de todo admirador e artista. Para sua profunda tristeza, o pior aconteceu. Rita se foi do jeito que veio. Trocando em miúdos, sumiu de sua vida e caiu no esquecimento. De uma hora pra outra, de repente.

Foi quando conheceu uma morena. De olhos bem verdes, que lhe suscitavam querer mergulhar dentro deles. Ele a convenceu a acreditar que valia a pena, e juntos viveram um conto de fadas. Quando a tocava, o reino era só dele. Deles sim. Até ela sumir no mundo sem o avisar. Ficou sem Maria, e o faz-de-conta terminou assim.

Anos depois, deparou-se com Carolina. Triste como os anos que passam, doce como a vida que vem. Ele tentou mudar, avisar, mas Carolina não viu. Não viu nem a Rosa nascer. Rosa. Outra que mudou sua vida. Inconstante e um pouco doida. Sem deixar de ser alegre, entre perfumes e espinhos, fez parte de seu caminho.

Vieram Anas, Morenas, Joanas, Madalenas, Bárbaras, Beatrizes, Iolandas. E nenhuma durou pra sempre. Chegavam, algumas eram mais difíceis de esquecer, e acabavam indo. E, finalmente quando chegou a vez dele de partir, foi embora feliz. De tanto amar, entendeu afinal que viver era mais que buscar entender. Foi-se para sempre com uma única certeza: Chico. Eternamente Chico.

Quinta-feira, Abril 24, 2008


Entre linhas


A palavra entrelinhas tem sua origem semântica na aglutinação da preposição “entre” com o substantivo “linhas”. Entre as linhas. A princípio era usada relacionando-se a linhas de trem. Entrelinhas era tudo que se encontrava entre as linhas mais próximas de duas vias férreas adjacentes. Bom, eu também não entendi. Infelizmente o Aurélio estava ocupado e isso é tudo que diz sua primeira definição. Acontece que a segunda é bem mais interessante. Não pelo que ele disse; mais uma vez é seco e objetivo: o espaço entre duas linhas de um texto. Tudo que está entre esse “entre” aqui, e aquele ali, na linha de cima. Ou seja, espaço em branco; o nada. Não, não. Muito pelo contrário.

O dicionário não é tão burro assim (ele é o pai deles, certo?), e nos presenteia com outra definição: “o sentido implícito”. A que mais nos interessa nesse texto. O que é o sentido implícito? O que realmente está entre uma linha e outra? Aquilo que não foi dito? E mais importante, por que não foi dito? (...) Mas, será que não foi mesmo? Afinal, para haver entrelinhas, as linhas precisam ser escritas de uma forma que possibilite essa existência.

Quando escrevemos algum texto, sempre com a intenção de que alguém irá ler (mesmo que só nós mesmos), pensamos e sentimos muitas coisas. E certas coisas não podem, não devem ou ainda: é melhor que não sejam ditas. (Escritas, no caso do texto. Mas pode-se expandir o conceito para qualquer comunicação). Em contrapartida, é preciso que o lado de lá da mensagem as captem assim mesmo. Senão, qual o ponto em escrever se o mais importante não será compreendido, transmitido ao menos?

É uma delícia notar quando uma mensagem nas entrelinhas é lida por quem você queria. E dá para perceber quando acontece através das reações de quem a recebe. Essa pessoa pode responder na mesma moeda, continuando com aquele universo implícito, formando aí um diálogo cheio de mistério e compreensões exclusivas dos dois indivíduos. Ou até somente reagir à mensagem, sem necessariamente responder de forma igual. Mas sempre deixando claro que o entendimento foi alcançado.

O único perigo são as conjecturas. Nesse abismo que existe entre as linhas, muita coisa pode ser interpretada. E às vezes, nossa ilusão ou vontade de acreditar em algo nos faz ver o que não existe. Aliás, será que não existe mesmo? (...) Se o Aurélio pudesse me ouvir agora, ele pensaria que sou um louco por ter visto mais de trinta linhas entre as quatro que ele me mostrou.





Quinta-feira, Abril 17, 2008



A vida não é filme, você não entendeu.


Mas bem que tem trilha sonora e muitos momentos de clímax. Podemos até classificar a vida na divisão do teatro clássico: tragédia ou comédia. Como nada, nunca, é cem por cento uma coisa só, temos que fazer a média e traçar o gráfico; e é claro, curtir a trilha. Isso é o mais gostoso. Sempre diz muito sobre o que a gente vive. Ou você acha que uma música mexe com você, numa determinada época, por pura coincidência? Aliás, coincidência existe?


Chove chuva, chove sem parar. Sonoplastia ideal para um momento pensativo, devorar um livro de serial killer, brigadeiro quente direto da panela, filminho (com pipoca) abraçadinho embaixo do edredom, uma partida de baralho usando aquele moletom antigo que só você gosta, e como não poderia esquecer aquilo que mais combina com os pingos que cismam em ensaiar sua melodia no telhado: dormir. Igual a um anjo... O sono dos justos!


Só liguei, porque te amo. I Just called to say I love you. (Ministro me perdoe, a versão ianque é mais charmosa). Elegi esta dentre aproximadamente um bilhão de músicas românticas por um único motivo; nela reside a razão mais pura para alguém querer estar junto de quem ama: o simples fato de amar. Não há reviravoltas, nomes escritos na areia, tapas e beijos, nada disso. Deu vontade de ligar, de ouvir sua voz, só porque te amo. Precisa mais? (...) Como nenhuma operadora de celular ainda não usou isso? Olha só, Dia dos Namorados está aí. Quem sabe?


Trocando em miúdos, a vida pode não ser filme, mas tem hora que é como se fosse. E de um jeito que projetor nenhum consegue reproduzir. Você se torna o expectador que vivencia, que experimenta. Se a cena é triste, que pena. Faz chorar por fora e machuca por dentro. E há momentos em que gente parece até querer que o drama aumente. Coldplay no talo e o pensamento, como um editor, remói as memórias mais tristes e as coloca numa seqüência pra lá de dolorosa. Um velho professor costumava dizer: “Não há tal coisa chamada ‘fundo do poço’”. As coisas não vão mudar, se você deixar que o editor prossiga em sua triste decupagem.


Aquele ponto em que – a partir dali – tudo começa a melhorar, o tal “fundo do poço”, só existe quando a gente decide parar de cair. É aí que você muda de estação e procura Lulu Santos ou Jorge Ben, sintonizando alegria e buscando bom humor para a sua vida. Pro dia nascer feliz é preciso deixar o céu se abrir, ver aquele azul brilhante aparecer. Deixar o sol quente brincar com a brisa fria, só pra ver quem arrepia mais a pele nua e macia. O sorriso é de criança, mas o coração já sabe o que esperar.


Tristeza não tem fim? Ô se tem.












Segunda-feira, Abril 14, 2008

Charles Chaplin

Não consegui colocar nada novo esses últimos dias porque realmente o tempo não ajudou. E não tô falando da chuva que cai até agora, 11 da noite, em Ribeirão.

Mas, para não decepcionar ninguém - começando por mim mesmo - achei um texto do mestre Chaplin simplesmente fantástico.

Prometo escrever coisas novas o quanto antes. Não estou sofrendo de bloqueio criativo, prometo. Aliás, muito pelo contrário.

Lá vai... : )


"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para o colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"

Segunda-feira, Março 31, 2008

Vai e vem



A fila estava enorme e o segurança irredutível. Sabrina tentou argumentar, chegou a apelar para seu charme feminino. Inútil. Ela já tinha feito sua tentativa, era a vez das pessoas de trás arriscarem e tirarem-na de lá. Já estava prestes a desistir quando reconheceu uma colega de faculdade lá dentro.


Feliz e risonha, Alessandra aproveitava seu drink e conversava efusivamente com um bonito rapaz. De rabo de olho percebeu que a confusão da entrada ganhara um movimento novo, virou-se e alguém lhe acenava como louca. Pediu licença ao rapaz e aproximou-se da cena.


- É ela, moço. Minha amiga. Me deixa entrar, fala pra ele, Alê. – decidida, Sabrina encarava ora o segurança ora Alessandra, que não dizia uma palavra, até que o grande homem de preto quebrou o silêncio com sua voz cavernosa:
- Você conhece ela? – Alessandra olhou bem nos olhos de Sabrina, que praticamente suplicava sem emitir som.
- Não. Não conheço não. – sublinhou cada sílaba proferida e sorriu com olhar de vitória para Sabrina, por sua vez, completamente desolada.


Alessandra, realizada, virou-se, e nem chegou a notar que Sabrina caía da escada, após um empurrão mais forte de uma garota que vinha atrás dela.

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Suas mãos tremiam no momento em que pousava o telefone no gancho. Jogou-se no chão e chorou copiosamente. Nunca sentira dor igual. Como era possível sofrer tanto? Como ele tinha sido capaz de dizer aquelas palavras? Como a mesma boca, que tantas carícias proferira, dizia aquelas atrocidades agora?


Quando as lágrimas secaram, ligou novamente e não foi atendido. “Pedro filho da puta!”. Revoltado, pegou o carro e seguiu à casa de seu amor. Por sorte conhecia aquele caminho de cor, já que as lágrimas o impediam de ver o caminho.


Esmurrou a porta até ser recebido; precisava ouvir tudo aquilo pessoalmente. Queria ver se Pedro tinha coragem. Já tinham terminado e voltado tantas vezes antes, por motivos até imperdoáveis. Após um longo e triste discurso, Pedro concluiu:


- ...“Cadu. Eu não te amo mais.”

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Acordou com aquela sensação de esquecimento. Conferiu mais de uma vez a bolsa, e tudo parecia em ordem. Mesmo assim, entrou no ônibus com a certeza de que esquecera algo. Chegando à faculdade, esqueceu-se de que talvez tivesse esquecido alguma coisa, cumprimentou seus amigos, conversou um pouco e logo se despediu. Era a única da turma que assistia às aulas de Literatura e não podia se atrasar.


Entrou na sala, e o que viu a fez sentir revirando-se de dentro pra fora. Alguns grupos de pessoas reunidas em cantos separados da sala, aquela leve confusão de decibéis, o professor passando de grupo em grupo recolhendo algum punhado de papéis. Ela tinha se esquecido do trabalho bi-mestral de Literatura, que por não ter grandes amigos na sala e simplesmente por não se importar com isso, havia resolvido fazer sozinha. O medo a esvaziava por dentro, mas decidiu tomar uma atitude de sobrevivência.


Correu os olhos pela sala, procurando algum grupo menor e que o professor ainda não tivesse passado. E encontrou um, com apenas três garotas. Uma delas, inclusive, sempre fora muito simpática. Seguiu naquela direção, certa que o favor seria atendido.


Assim que acabou sua súplica, prometendo recompensar as três numa próxima oportunidade e que se pegasse DP seu pai a tiraria da faculdade, encarou cada uma delas e parou seu olhar para a terceira – aquela com quem trocava rápidas palavras.


- Sinto muito, mas não posso ajudá-la – Alessandra mal acreditava no que escutava. E assim, atordoada, acompanhava sua colega com o olhar, enquanto esta entregava um trabalho com apenas três nomes ao professor, dentre eles lia-se "Sabrina".


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Chegou à balada impecável. Estava realmente mais esguio do que nunca. Sua calça elegante servia-lhe perfeitamente. Seus cabelos estavam no comprimento e rebeldia exatos. Sua pele corada, e seu sorriso de orelha a orelha encantava por onde passava.


Encontrou muitos amigos, ex-casos, ex-namorados, mas uma pessoa em especial, ele precisava encontrar. E eis que surge, trazendo uma cerveja em mãos, Pedro. Cumprimentaram-se e cada um seguiu para um canto da festa.


Lá pelas tantas, Cadu percebeu um rapaz muito bonito fitando-o. E respondeu com o olhar. Essa troca se tornou tão descarada que um amigo veio alertá-lo de quem se tratava.


- Cadu. Esse cara é o Tomás. Ele acabou de terminar um casinho com o Pedro, e parece que o Pedro ficou muito mal com isso. – as palavras do bom amigo surtiram efeito contrário, mas Cadu soube fingir bem:
- Ah, é? Não sabia.


Minutos depois, Cadu e Tomás agarravam-se loucamente no centro da pista de dança, para desespero de Pedro, que resolveu sair de lá, antes que alguém o visse chorando.

Sexta-feira, Março 14, 2008

Ops!




A carinha final é a melhor... Isso me lembra também a famosa encarada da marmota, abaixo. Hahaha


Quinta-feira, Março 13, 2008

Como dizia o poeta...


... A TONGA DA MIRONGA DO KABULETÊ!

Quarta-feira, Março 12, 2008



... só o que é de verdade



Se eu fosse o meu chefe, mudaria o fim do expediente para as quatro da tarde. Daria meia horinha de lanche, e seguraria o povo até as quatro. Pronto! Depois disso cada um faz o que quiser. Aposto que todos seriam mais felizes e correriam pra finalizar tudo a tempo, pra não terem que fazer hora extra e sair tarde da noite: umas seis.

Se eu fosse um milionário, uma das coisas que eu iria fazer é bater o carro. Isso mesmo. Bateria meu land rover várias vezes por dia. Mesmo podendo evitar, causaria o acidente. Logicamente em casos em que não tivesse culpa. Neguinho que corta pela direita, motoboy em sinal vermelho, outro que não respeita a preferência. Todos eles sairiam com um prejuízo maior que a própria cara de pau, e a lição aprendida. Quanto a mim, no máximo esperaria eles consertarem meu jipe enquanto usasse um dos meus outros duzentos carros.

Se eu fosse uma mulher maravilhosa, caprichava num vídeo pra entrar no Big Brother e sairia já na primeira semana. A grana que eu iria ganhar depois, em contratos e revistas, certamente supera o prêmio que a chatice de ficar três meses presa poderia trazer. Ah! Já fizeram isso, né?

Se eu fosse o Roberto Carlos, eu esqueceria essa história de usar branco e azul sempre. Vestiria uma bela japona de couro e faria uma turnê com todos os meus hits dos anos sessenta e setenta. De quebra, levaria o Tremendão comigo. Detalhes, Ciúmes de você, Eu sou terrível, Calhambeque e muitas outras fariam a cabeça de muitos brotos, de todas as idades. Yeah!

Se eu fosse o Bin Laden, doaria toda a minha fortuna para a reconstrução do Afeganistão, pediria perdão na Al Jazeera e desmancharia com o Talibã. Principalmente as crianças terroristas. Quem não brincasse e estudasse, ficaria sem chocolate.

Se eu fosse o presidente da Nestlé no Brasil, traria imediatamente o Kit-Kat de volta. Não tem cabimento o chocolate mais gostoso do mundo só ser encontrado fora do país. No free shop tem. Desgraçados! Enquanto não atravessa a alfândega está fora do país. Qualé? Se chegou em Guarulhos, chega no Brasil todo. Atrasado, mas chega.

Se eu fosse bandido, faria o bem. Se eu fosse São Pedro, chovia só de madruga. Se eu fosse o Bill Gates, doava. Se eu fosse europeu, vinha para o Brasil. Se eu fosse do mal, virava do bem. Se eu fosse uma estrela, brilhava de dia. Se eu fosse o sol e o mar, pegava leve. Se eu fosse cerveja, estaria sempre gelada. Se eu fosse uma festa, só aceitaria amigos. Se eu fosse mais velho, teria saudade. Se eu fosse mais novo, teria vontade.

Mas, se eu fosse você...




Quarta-feira, Março 05, 2008




Plunct Plact Zum! Boa viagem.




Em três meses, devo ter feito essa viagem cinco vezes. Quatro horas e meia pra ir e outras quatro e meia pra voltar. Um total de quarenta e cinco horas sentado numa poltrona de ônibus, indo para São Paulo, ou voltando de lá. Resolvi então falar de um assunto curioso. Muitas vezes incômodo e pentelho, algumas outras, divertida e carinhosa, mas sempre, sempre presente: a pessoa da poltrona ao lado.

Quero prender o cinto de segurança, mas o camarada usou o meu por acidente. Até ele entender o que está acontecendo, já faz cara-feia e quase parte pra cima. Na parada obrigatória, quero descer. Mas advinha? O danado deitou e esticou a perna no apoio respectivo, e não ouve meu chamado discreto. Não vou gritar e acordar o ônibus todo. Terei que pular por cima. Bem devagar, estico a perna, apóio sem muita força no banco da frente e, com a outra mão, quase já alcanço o maleiro e... Pof! O cara acorda e pula de susto. Comigo (literalmente) em cima dele! Quase que eu caio no corredor e a situação é das mais constrangedoras. Precisa de mais detalhes?

Numa outra oportunidade, chego à minha janela (previamente comprada) atrasado. Um casal ocupa os dois bancos. Confiro o número. É esse mesmo. Eles fingem que não me viram, e eu sou obrigado a dizer que aquela poltrona é minha. Só então, a mulher, que ocupava a janela (a minha) pede-me o favor de deixá-los juntos. Aceito sem o menor problema, já passei por isso e sei como é importante e bacana viajar junto. Até aí tudo bem. Fui para frente, na janela que ela disse ser a que pertencia a eles. Três minutos depois, um senhor requisita meu lugar. A-há. Ela mentiu pra mim! O casal chegou mais atrasado que noiva em dúvida e conseguiu dois corredores pra viajar. Resultado: a única vez que eu comprei a volta junto com a ida, fiquei no corredor, ao lado de um senhor que roncava e ocupava quase os dois lugares. Depois dessa, só compro passagem na hora.

Essas histórias ainda são pouco perto de bafo, cheiro de sovaco ou aquele da coxinha que acabaram de trazer do Graal e resolveram comer dentro do ônibus. Teve uma em que ninguém sentou ao meu lado, que sorte. Mas na frente ficaram mãe e dois filhos pequenos (como, não me pergunte). E ao lado, um trio idêntico. As quatro crianças berraram, choraram, correram pelo ônibus e até sentaram na poltrona vazia ao meu lado, olhando-me com curiosidade. No fim, as duas mães viraram amigas e todos caíram no sono. Inclusive eu, com um sorriso no rosto e um dos meninos dormindo em meu ombro.


Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Crônicas de um novo lar - texto 3



Quitutes (leia se estiver sem fome)


Come-se bem em Ribeirão Preto. O custo, geralmente, é menor do que o paulistano costuma pagar. Mas, sem grandes diferenças. Come-se bem em Ribeirão, pois a variedade é ótima; e as distâncias, menores. Em São Paulo, geralmente, desloca-se muito para chegar a um bistrô escondidinho nos Jardins, ou àquele ‘achado’ no bairro de Santana, que prepara uma dobradinha como poucos. Come-se bem por aqui, da entrada à sobremesa.

Vamos começar a refeição. Você é natureba? Curte uma saladinha? Ribeirão é o lugar certo. Muitas opções naturais, saladas, sanduíches, açaí etc. Eu (quem me conhece, sabe) que odeio verdura, gosto da salada daqui. É tudo literalmente natural e mais gostoso. A saúde agradece.

Você é junk? Adora um salgadinho? Perfeito. Uma das maiores características gastronômicas daqui são as chamadas Salgaderias. Além das opções tradicionais deliciosas, existe um tal pastel francês. Difícil descrever: imaginem uma massa folhada, em formato de pastel, muito recheada (com várias opções de recheio).

Porções em barzinhos é um quesito que aqui dá um baile na capital. Além de muito saborosas, são fartas e baratas. E tem até o rodízio de porções. Indescritível. Falando em rodízio, existe um de mini-sanduíches. É isso mesmo. Imaginem cheese-burguers, mistos-quentes, hot-dogs, churrascos com queijo, todos cabendo na palma da sua mão. Diz o cardápio que são 36 variedades. Eu não sei, porque parei na décima primeira.

Prato principal? Tem de tudo. Mesmo. Lanche, pizza, massa, risoto, churrasco, por quilo, a La Carte, delivery, barato, caro, chique, popular, mexicano, tailandês. É uma mini-São Paulo culinária. Demoraria muitas linhas pra descrever. Pense na capital e divida por mil. Vamos aos doces.

Minha sobremesa preferida é o sorvete. Ah, o sorvete. Eu, acostumado com a Häagen-Dazs e a Parmalat – nas imediações da Rua Iguatemi com a Faria Lima -, me assustei com a sorveteria da Praça Sete de Setembro. Começando pela variedade. Tem até sabor tijolo. Todos feitos artesanalmente, e super fresquinhos, pois a rotatividade é enorme. Ali, sai sorvete igual água. Depois, é claro, o preço. Um real a bola; dois reais, duas bolas. E são duas mega-bolas. Duas bolotas, duas bolaças, duas bolotonas! ... E finalmente, a maior surpresa vem quando o experimentamos. Uma delícia de botar inveja em qualquer alemão ou italiano metido a sttupendo.

Infelizmente só tenho aproveitado essas delícias aos fins de semana. Pela minha saúde; de espírito e financeira. Queria falar mais sobre a Califórnia Brasileira, mas já são seis e meia da tarde e está chegando a hora de ir para aula. Aula? Que aula? Num próximo texto, eu conto. : )






Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008


Convite ao passado


Cansado. Muito cansado. Terminara a aula quase meia hora além do habitual. Portas. Muitas portas. Fecha a do carro, passa pela do elevador e abre a da casa. Sem querer, pisa em alguns envelopes previamente jogados por debaixo da porta. “Amanhã eu vejo”, pensa. “Contas.”. Jogou-os na pasta. Abriu uma cerveja e ligou a televisão. Futebol. Melhores momentos do jogo em um dos melhores momentos do dia.


O bloco de envelopes, metade para fora da pasta, chamou-lhe a atenção. Notou que um deles era prateado. Não podia ser conta. Largou a cerveja e pegou-o. Em fonte elegante, no fundo prateado, lia-se: “Convite de Casamento.”. Mas quem poderia estar casando? Desde que se mudara para a capital não tinha estabelecido nenhum vínculo de amizade forte o bastante. A não ser que fosse alguém do trabalho. Mas nesse caso, não teria sido necessário o envio pelo correio. Curioso, abriu-o rapidamente. Não reconhecendo os nomes dos pais e do noivo, correu os olhos buscando o sexto nome; sua respiração cessou por alguns segundos, e sentiu congelar por dentro.


Passado o susto, examinou o convite. Tentou se lembrar dos nomes dos pais daquela garota, que um dia, importou mais que tudo em sua vida. E junto dessa lembrança, tantas outras surgiram, como pipocas estourando descontroladamente numa panela, até pouco tempo, quieta. Pegou outra cerveja e se atentou aos detalhes da cerimônia. Duas semanas daquela data, obviamente, em sua cidade natal. “Ela continua por lá.”. Deixou o convite com o verso virado pra cima e viu alguma coisa rabiscada à caneta. Leu a seguinte frase: “você sempre será o meu verdadeiro amor.”.


Foi se deitar, após rasgar o convite, decidido a esquecer tudo isso. Mas não conseguiu dormir. Bastava fechar os olhos que o mesmo turbilhão de pensamentos e lembranças o envolviam como um furacão. Uma coisa era certa: não iria ao casamento; por todos os motivos do mundo. Acabou se deixando levar por uma força invisível e adormeceu nessa nuvem de memórias.


Duas semanas depois, numa pequena cidade do interior, uma jovem entrava na igreja vestida de noiva. Atravessava o corredor com o coração nas mãos, pulsando como nunca. Parou em frente ao padre que dava início à cerimônia. Alguns minutos depois, enquanto todos os presentes se concentravam à cena que ocorria em frente ao altar, um rapaz entrava silenciosamente no fundo da igreja.


A noiva sentiu um frio dentro do peito, pensou em jogar o buquê para o alto e correr na direção que seu coração pedia, mas não se virou; não era preciso. Na outra ponta, ele sabia que aquele corpo, todo de branco, de costas pra ele, sentia sua presença. Quis correr por aquele corredor como um louco. Mas não fez nada; não era preciso. Virou para o lado oposto e se foi.


Do lado de fora da igreja, um homem descia a escadaria embaixo de chuva. Do outro lado, uma mulher se casava com pétalas de rosas caindo do céu. Entre todas as gotas que escorriam pelo rapaz, uma em especial deslizava por seu rosto. Mas não era feita de água; era igual àquela que, em frente ao padre, escorregava por baixo do véu.





Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008





One, two, three, four!


Que janela é esta?
Que janela leva ao mundo da folia?
Aonde até os Etês tem vez,
e a buzina paralisa de alegria.
Não é carrapato. É do balacobaco.

Todo mundo é de todo mundo
e a Maricota,
com a direita ou com a canhota,
cutuca a dona Rosa
sobre o bonde do Barbosa.
Curva perigosa!

Ah, que dor no coração.
Eu peguei no mato
o Juca Teles aprontando confusão.
Ele não tinha visto que
bauru, sem tomate é misto.
Bebeu, caiu, levantou
e pro bloco ele voltou.

Um bixo que coça e pica
e que puxando, estica,
parou em cima da flor.
Seguindo em frente nessa linha,
cantou palavras de amor:

“São Luiz do Paraitinga,
cidade muito linda,
pequena em habitante.
No carnaval e na alegria,
é mais do que gigante.

Só de lembrar da ladeira
com a igreja ao fundo,
meu coração bate profundo.
E ano que vem, meus amigos,
...
Eu espero todo mundo!”
















Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008







Preparem-se, bochechas!





















Amanhã vocês terão que se ver comigo!
































Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

Crônicas de um novo lar - texto 2



Amarelou



Papai me ligou às quatro da tarde. “Toma a vacina filho. Ribeirão é rota da doença de quem vai pra São Paulo.”, médico e preocupado com a “epidemia” de Febre Amarela, meu pai me aconselhava com seriedade. Desliguei o telefone e alertei meus colegas de trabalho em voz alta. A comoção foi generalizada, afinal, um médico disse; opinião de doutor é sempre levada a sério. Muitos concordaram, outros fizeram pouco caso, mas todos pararam para pensar. Sendo sincero: nem eu tinha a real intenção de me vacinar, apenas joguei o assunto no ar para ver no que ia dar. E deu.

Pelo visto não foi só meu pai que alertou algum residente de Ribeirão Preto, pois no dia seguinte, o prefeito da cidade fez uma declaração pública, dizendo que não deveríamos nos preocupar, a doença estava longe de Ribeirão e blá blá blá. Ficamos tranqüilizados por alguns dias, até que morreu o primeiro símio na região. De febre amarela. Fodeu.

Meu chefe chega uma bela manhã e nos convida para ir ao posto de saúde. Eu aceito. Pela sua determinação, aposto que era ordem da esposa. “Vai vacinar e pronto!”. E lá fomos nós dois (o resto da agência ficou, esperando, como se fôssemos bois de piranha). Detalhe importante: estava sem minha carteirinha de vacinação.

Chegando lá, numa quarta-feira às 10 da manhã, estranhei tamanha confusão. Tudo culpa do macaco, pensei. Havia tantas filas que eu não sabia por onde começar. Me sentia no brinquedo mais concorrido do parque de diversões. Fila de um lado, fila do outro, fila que passava por cima de fila e assim por diante; se você ficasse parado por mais de um minuto, alguém pararia atrás de você, formando uma nova.

“Qual é a fila pra febre amarela?”. “Segue a linha vermelha.”. Hum. Interessante... Seguimos a instrução e começamos nossa longa espera. É engraçado o que ocorre em filas como essa. Todo tipo de gente, pobre, rico, bonito, feio, cachorro, burro, todo mundo se junta e completa a maçaroca. O problema surge quando a fila não anda, ou quando algum conhecido de uma pessoa localizada à frente chega. Começa batendo papo, como quem não quer nada e pimba: roubou uma posição no grid. Advinha o que acontece? Aquela senhora atrás de você, de pantalona bege, se transforma em sua confidente e cochicha: “Que absurdo, né? Você viu o que eu vi?”. Se você não quiser aumentar os problemas, apenas confirme com a cabeça. Se tiver sorte, ela pára de falar. Mas o mais legal é botar lenha na fogueira: “Vi. E sabe do que mais? Ouvi dizer que não vai ter vacina pra todo mundo. Só falta acabar na nossa vez.”. Pronto. A velha fica puta e é capaz de dar com a bolsa no furão.

Boatos à parte, a danada da vacina acabou mesmo. Por sorte, antes que aquele lugar se transformasse na Tomatina, surge um ‘enfermeiro’ assustado carregando um carrinho com várias doses da droga. Nós, como viciados em abstinência, nos acalmamos, e a fila voltava à (des)ordem de antes. Com direito à mesma senhora puxando assunto de novo: “Ai, meu Deus. Será que é esse o moço que dá a vacina?”.

Uma hora depois da minha chegada, percebo que todas as filas que vi eram, na verdade, a mesma. Voltas e mais voltas, entra numa porta, sai na outra, pula os galões de oxigênio, vira à esquerda nos curativos e pronto: você ganha uma senha! Legal. Mais uma fila, mas pelo menos com a certeza de que vai ter vacina pra você. No mínimo, eles contaram a quantidade de senhas. Ou não.

A enfermeira, do tamanho de uma poltrona, diga-se de passagem, pega meu número e pede minha carteirinha. Explico a situação e ela não esboça reação. Antes que me olhe, completo: “estou indo viajar para o Mato Grosso, melhor me precaver. Quando chegar em São Paulo, atualizo minha carteirinha.”. Poltrona convencida, vacina dada. “Vai doer?”. “Só uma picadinha.” A mesma resposta há vinte e cinco anos e sempre dói. Picadinha no braço dos outros é carinho!

Devidamente vacinado, resolvo fazer uma graça. Saio da sala com a mão em cima do braço, fazendo caras e bocas, me contorcendo de dor. A reação da fila é imediata: alguns dão risada, um senhor me reprova, uma mãe pergunta se dói mesmo, e suas crianças choram assustadas. “É brincadeira”, tento consertar. Tarde demais... Melhor ir andando, antes que uma bolsa me atinja na bochecha.

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

Crônicas de um novo lar - texto 1



Garota, eu fui pra Califórnia


Finalmente o primeiro texto sobre Ribeirão Preto. Estando a 400km de São Paulo, a viagem leva três horas, três horas e meia. Depende do carro, do clima e da burrice do motorista que além de arriscar a vida, periga em ser multado de dez em dez minutos. De ônibus, demora-se uma hora a mais; com direito a parada.

Ribeirão é conhecida como a Califórnia Brasileira, por algum motivo que ainda não soube desvendar. Nunca estive no oeste norte-americano e é a minha primeira vez por aqui. Já ouvi falar que, em Los Angeles, o verão também castiga, mas lá existe o litoral do Pacífico para refrescar. Já Ribeirão Preto fica devendo até em vento.

A cidade é maior do que eu imaginava e tem tudo que São Paulo tem. A única exceção que ainda não vi se chama Burguer King. E é claro, também não tem estresse, filas e trânsito. Ah, o trânsito! É incrível morar ‘longe’ do trabalho e levar infinitos quinze minutos para ir de um ao outro. Quando disse uma vez onde morava, me responderam que era o mesmo que viver em Interlagos e trabalhar em Santana. Meu Deus! Já imaginou?

Inclusive, a cidade é um grande pólo cultural do interior. Teatros, SESC, Sesi, cinemas, museus, exposições. Sempre por um preço bem convidativo; o cinema, por exemplo, multiplex UCI, cobra R$ 8,00 a entrada inteira. Shows com artistas de nome também não faltam. No SESC, é possível assistir um espetáculo por uns quatro reais, também sem carteirinha. Tanta efervescência cultural se deve ao elevado nível social da cidade e ao imenso número de universidades, suponho eu.

Não estou querendo dizer que é tão rico em opções de lazer e cultura como Sampa, mas é muito melhor do que eu imaginava. Já fui ao teatro aqui, em quinze dias, o mesmo que em São Paulo ano passado. Está certo que três vezes num ano não é parâmetro para um cidadão paulistano, mas espero ter aprendido a lição. Se tudo correr como estou planejando, em breve estarei de volta ao palco. Quem sabe...

Quanto aos bares, amigos, garotas, trabalho, pingüim, cotidiano, experiências morando sozinho, enfim, fica tudo para depois; doses homeopáticas entre um texto e outro. Só posso adiantar que tenho me surpreendido comigo mesmo. É difícil mudar os hábitos da água pro vinho. Ou, do vinho pra água.

Cada dia que passa, as coisas mudam, eu aprendo e “apanho” um monte, me dou bem, me dou mal, a saudade apertando e eu, aos trancos e barrancos, vou levando. Ah, mas se tem uma coisa com a qual eu nunca vou me acostumar, é o preço da gasolina. Por que cargas d’água uma cidade, cheia de usinas, vizinha da maior reserva da Petrobrás e referência nas pesquisas do biodiesel, pode cobrar, por um mísero litrinho de gasosa, o absurdo de R$ 2,60?!





Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

Em breve crônicas de Ribeirão.

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007


Para nascer feliz



Embalo uma criança em meu colo. Já é tarde, ele precisa dormir. Sento no sofá e trago-o pra mais junto de mim, enquanto faço carinho em sua barriga. Ele me encara, eu sorrio. Começo a cantar; acalma. A mim e a ele. Escolho Cazuza, Preciso dizer que te amo, e canto baixinho. O carinho continua no ritmo da música. Eu nem preciso dizer que o amo, está em mim, no olhar, no abraço, no carinho que embala meu ninar...

Posso dizer que o amo antes mesmo dele nascer; bem antes. Já o amava desde o dia em que soube de sua vinda. Então, alguns meses depois, o amor se tornou concreto. Podemos concretizar o abstrato amor, podemos sim. São nos momentos, é nesse momento. Penso em todos os outros que estão por vir e quase choro. Minha voz estremecida ajuda musicalmente, combina com o tom da canção. Ainda não te levo na escola, mas você já faz parte do meu show.

Curioso. Algumas horas antes, tive uma daquelas conversas complicadas que a gente tenta evitar, mas acaba passando várias vezes na vida. Um tipo de conversa que determina o futuro, daquelas decisivas mesmo. O paradoxo reside aí: é rara e exclusiva, mas sempre acontece e é sempre igual. Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo o futuro em meus braços. Ele está quase dormindo.

Deixo-o no berço e a música continua ressoando dentro de mim. Me afasto e encosto a porta. Incrível, finalmente percebo que o futuro ainda está diante de mim. Sempre esteve... Se for um museu de grandes novidades, que seja. Faço questão que sejam grandes, faço questão de vê-las todas. Afinal: o tempo não pára. E não sou eu que ficará parado olhando ele passar...




.... Boa noite, João. Até amanhã.
















Sexta-feira, Novembro 30, 2007

CONTARDO CALLIGARIS

"O Passado"

Nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével, sobretudo em se tratando de amor



"O PASSADO ", de Hector Babenco, estreou na última sexta-feira. O filme, que, antes disso, abriu a Mostra de Cinema de São Paulo, é inspirado no romance homônimo de Alan Pauls (Cosac Naify).Resumindo a história ao osso, para não estragar o prazer dos espectadores futuros: Rímini e Sofía se juntam muito jovens e se separam, amistosamente, depois de 12 anos. De uma maneira ou de outra, a relação que eles viveram não os deixa tranqüilos.

Na saída do cinema, a conversa era animada. Os amigos (homens) achavam o filme tão apavorador quanto "Atração Fatal", de Adrian Lyne: para eles, Analía Couceyro, como Sofia, era mais inquietante que Glenn Close, justamente por parecer menos louca. Nossos objetos de amor talvez sejam sempre assim, familiares até o dia em que, na hora de uma separação, a própria paixão os torna totalmente estranhos.

As amigas respondiam que a causa do problema era a fraqueza do protagonista masculino. De fato, Rímini (Gael García Bernal) parece seguir o desejo de todas as mulheres que ele encontra, sem nunca descobrir e afirmar o seu.

Outra discussão dizia respeito ao fim do filme: será que Rímini conseguira se livrar do passado, de vez? Eu pensei que não, que talvez ele tivesse conseguido se livrar das atenções incômodas de sua antiga companheira, mas não há amnésia que possa acalmar o passado.

A história de Rímini e Sofía me evocou um trecho da autobiografia de Tchecov ("Minha Vida", ed. Nova Alexandria), em que o escritor comenta que o ditado "tudo vai passar" pode tanto aliviar nossa tristeza com a idéia de que dias melhores virão quanto mitigar nossa euforia com a idéia de que as vacas magras voltarão. Mas, por útil que seja, essa sabedoria é falsa: nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével. Acrescento: sobretudo os amores, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram.

A estética do filme de Babenco me tocou tanto quanto a história de Rímini e Sofía. Por exemplo, os personagens circulam por interiores abarrotados de restos do passado: livros, fotografias, quadros, os inúmeros objetos que, a cada mudança de casa, confirmam que nunca conseguimos deixar para trás os vestígios de nossa vida pregressa. Num momento do filme, Rímini se fecha, desesperado, num apartamento vazio; rapidamente, ele se encontra imerso numa montanha de restos: o lixo se acumula como prova irrefutável de que nem na derrelição é possível começar do zero.

À primeira vista, isso pode parecer estranho. Afinal, estamos acostumados a pensar que, na modernidade, os indivíduos são definidos por suas potencialidades futuras mais do que pelo passado. Não é assim?

Pois é, não exatamente. A modernidade começa quando paramos de deixar que a tradição diga quem somos. Não terei necessariamente a mesma profissão que meu pai, não serei nobre porque ele foi, não viverei no mesmo lugar dos meus antepassados, não escolherei meus amores para preservar a integridade de minha casta, religião ou raça e por aí vai.

Mas se o legado da tradição se torna menos relevante, é justamente porque o que me constitui é minha história -não apenas a intensidade do momento e a audácia de meus planos, mas o conjunto das experiências que vivi.

No começo da Revolução Francesa, o povo queria fazer tábua rasa: eliminar os nobres pela guilhotina e seus vestígios pelo fogo. Após um vigoroso debate, os vestígios foram poupados, e foram inventados os museus públicos. Poucas décadas depois, nasciam os conceitos de patrimônio histórico e de preservação dos monumentos. Ao mesmo tempo, surgia um interesse, que nunca mais se desmentiu, pela narração e pela compreensão da história.

Não funcionamos diferente: é possível guilhotinar os amores do passado ou (menos radical) apagar seus números de nosso celular, é possível até queimar fotografias -embora dificilmente sacrificaremos aquele desenho que compramos juntos, num sábado, na praça Benedito Calixto. De qualquer forma, mais que a lembrança, os rastros do passado sempre assombram o presente e o futuro.

Quando decretamos novos começos, ilusórios ou não, nem por isso conseguimos apagar nossa história: podemos apenas contá-la mais uma vez, quem sabe revisá-la ou corrigi-la, para pior ou para melhor.

Sexta-feira, Outubro 19, 2007



Falante


Na primeira noite confesso que não fui muito com a cara dele. Eu tinha apenas seis anos, mas já gostava de cuidar do que tinha; meu quarto era o meu reino. Mas, meu quarto pertencia a um reinado maior: minha casa. E a rainha (mamãe) obrigou-me a aceitá-lo. Como se não bastasse, Marcelo Marmelo Martelo – obra-prima da literatura infantil – veio junto, bem em cima do tal criado-mudo.

Enquanto tentava pegar no sono, contando carneirinhos, escutei uma voz. Acendi rapidamente o abajur e nada. Não tinha nada diferente no quarto, exceto pelo novo item da mobília. Olhei para ele e juro que pensei tê-lo visto olhando para mim. Pode ter sido só impressão, mas tinha certeza que o livro fora deixado fechado. Apaguei os olhos e fechei a luz. Ou vice-versa (estava confuso). A voz voltou e continuou falando o que parecia ser o começo do livro. Decidi permanecer de olhos fechados e, aos poucos, a história do pequeno Marcelo foi se confundindo com a minha e quando percebi, a luz da manhã me acordava outra vez.

O mistério se repetiu nas noites seguintes. Literalmente. Já era a quarta vez que escutava Marcelo Marmelo Martelo (bota literalmente nisso). Comecei a pedir livros novos, e conforme eu crescia, histórias mais difíceis escutava. Detalhe: sempre que alguém entrava no quarto, o criado-mudo parava imediatamente. Só eu podia ouvi-lo.

Com o tempo, não precisava mais de histórias para dormir e nós (eu e meu criado-mudo) passamos a conversar, como amigos mesmo. Inclusive ajudou-me muito na época do vestibular, repetindo fórmulas e lendo anotações enquanto eu dormia – ele jurava que a técnica de memorização durante o sono funcionava. Se sim, não sei. Sei apenas que passei. Quatro anos depois estava formado, e não tinha mais tempo para ele. Chegava tarde do trabalho, cansado e dormia. (Isso quando não vinha do happy hour). Por vezes escutei-o tentando me chamar, mas o sono era mais forte do que eu.

Certa vez acordei e ele não estava lá. Como não notara isso de noite? Corri até minha mãe e perguntei por ele. “Eu doei para uma creche”, respondeu, estranhando meu interesse. Fico triste quando lembro que não tive chance de me despedir. Mas logo um enorme sorriso toma conta de mim, toda vez que penso nas dezenas de crianças – encantadas e atentas – escutando às nossas histórias antes de dormir.

Quarta-feira, Outubro 17, 2007