quinta-feira, agosto 19, 2010


Super trunfo


Até hoje tive três carros. Três carros que chamei de meus. Na verdade, eu os ganhei. Nenhum deles foi um sonho novo, e sim, realidades semi-novas. Bem, cavalo dado não se olha os dentes, certo? Mesmo quando falamos de sessenta cavalos, cento e vinte cavalos? Para ser exato, não sei quantos cavalos cada carro tinha (ou tem, vai saber), mas não
olhei os dentes. No máximo, mostraram-me a correia dentada; de relance.

O primeiro era roxo. Era feio. Era um Ford Ka. Preciso falar mais? Não, mas eu quero. Um Ford Ka 97 roxo. Uma azeitona sem ar ou direção que me levava pra cima e pra baixo. Seu apelido: shake-móvel. Eu adorava. E adorava cada defeito nele. O fato de não caber ninguém (e mesmo assim eu colocar todo mundo dentro), a cor horrorosa, e, principalmente, o shake de pelúcia – brinde do mclanche feliz – que eu deixava em cima do painel. Um dia, uma garotinha no semáforo pediu o bichinho de presente. “Você vai cuidar bem dele?”, perguntei. Meses depois, ele (o carro) foi vendido. Infelizmente não pude fazer a mesma pergunta para o novo dono.


Na sequencia, veio a Deinha. D.E.A. Não lembro o número, mas foram as letras que a apelidaram. Deinha era um Peugeot 206 prata. Metida a e
sportiva com mecânica (e elétrica) de popular. Não foi a primeira e nem ponta-firme como o shake, mas me deu suas alegrias. Era completa, ar, direção, e completamente azarada: deu pane do começo ao fim. Ficamos juntos por um ano mais ou menos. Acho que ela me amava. Porque justo no dia de trocá-la, quebrou. Quase me vi obrigado a ficar com ela, mas só precisou de um tempo. Com o pistão partido e faróis baixos, ela se foi.

O terceiro me chegou como quem chega do nada. Francês (e fresco) como a Deinha, mas agora o ponta-firme era eu. Um Clio que nunca teve codinome. Nunca ninguém se arriscou, nem eu. As letras, com algum esforço, mostravam que tinha sido feito pra mim: DFT, Do Fernando Tardivo. E só. Sua cor chumbo-são-paulo sempre chamou menos atenção nas ruas do que uma pomba na calçada. Impecável durante certo tempo, mas como tudo neste mundo, envelheceu. Como um idoso que nunca teve nada quando jovem, passou a ter de tudo de uma vez.
A cada semana, um novo mal aparecia. Demorei para me desfazer dele. Ignorando os avisos e conselhos dos especialistas (que não foram poucos), mantinha-me firme na ideia de que ele voltaria a ser como antes. Não conseguia ver que a mudança era definitiva, minha e dele. E que era hora de comprar o meu primeiro carro.

Caro Clio, vá pela sombra, não pise na faixa e respeite o sinal. Um beijo para você que não tem nome, mas tem história de sobra. Ao lado da Deinha e do Shake, guardei uma vaga pra você aqui dentro. Eu me despeço em “praça” pública, sem sair pela tangente, e torcendo para que cuidem bem de você. Exatamente como você cuidou de mim.



quinta-feira, agosto 05, 2010



Bill Murray, o paraíso e duas marmotas sorridentes.



Aos doze anos assisti a “O feitiço do tempo” e adorei. Adorei a marmota, o Bill Murray e todas as outras coisas ali presentes que até então não conhecia. De lá pra cá, o tempo passou – principalmente para o Bill Murray -, mas não passou o feitiço. Tá aí um filme que se pego zapeando, não troco nem ferrando. Com o perdão da palavra: é do cacete. Perdão.



No filme (quem não viu, não se preocupe: isso não é um spoiler), todo dia é o dia da Marmota – aliás, o título original. Mas nem todo dia da Marmota é igual ao outro, mesmo sendo, entende? Bem, no filme, o dia é igual para todo mundo, menos para o Bill Murray. Entendeu agora? Ok, como dizia o poeta, “... viver ultrapassa todo entendimento”, mas como gosto de ser bem elucidativo: a marmota é um bicho fofo que num determinado dia do ano sai da toca pra avisar se o inverno vai ou não continuar. Mas, acontece um feitiço (ou qualquer coisa do tipo) e o calendário resolve parar de soltar suas folhinhas bem no Dia da Marmota.



Vamos deixar o filme, enredo e as digressões de lado (senão daqui a pouco quebro a promessa e conto demais), e foquemos na idéia: imagine você viver o mesmo dia, todos os dias da sua vida. Tchã-rãn! ... Imaginou? Pronto. Era aí que eu queria chegar (mesmo levando três parágrafos). Isso pode ser assustador, tedioso ou incrível; enfim, só depende do dia. Do dia original, do dia “slide mestre”. Ué, se ele se repetirá ad aeternun, um dos três adjetivos acima também o fará. Pois que seja o melhor dia de todos os dias da sua vida, ora bolas. Quer dizer, tomara que seja o melhor dia de todos os dias da sua vida, ora essa... vai que o feitiço te pega.



Quero crer que o paraíso, o Éden, chame como preferir, seja assim: o melhor dia da sua vida; no repeat. Acontece que, de uns tempos pra cá, tenho vivido vários dias iguais para todo mundo (até para o Bill Murray), porém pra lá de especiais. Dias indeléveis, com timing e aproveitamento perfeitos, sabe? Pois é, torço para que lá em cima tenham instalado a última versão do iTunes, só pra colocar a playlist ‘Dias da Marmota’ no shuffle. Ad aeternun, é claro.


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segunda-feira, maio 31, 2010



O.P.S.


Fio dental, sorriso, fio dental na frente, atrás, sorriso. Gengiva, sorriso. Certo. Língua, mostra a língua, mostra mais. Ok. Vira o rosto, quarenta e cinco graus pra esquerda, quarenta e cinco pra direita. Pinça. Ergue o queixo. Ótimo. Torneira aberta, mãos também. Esfrega um lado do cabelo, agora o outro. De novo, boa. Pega o pente do bolso, deita os fios para trás. Uma, duas, três vezes. Sorriso. Vira pra lá, vira pra cá, sorriso. Gengiva, sorriso, fecha a boca.


Camisa. Cuidado, calma. Botão, botão. Gola, ajeita, estica. Espana uns pontinhos brancos, puxa a camisa pra baixo. Não tanto. Arruma pelos ombros. Gola reta. Sorriso. Ok. Casaco. Mais cuidado. Gola da camisa de novo. Zíper. Até a metade. Lado esquerdo do cabelo. Fio atrás da orelha. Pronto. Carteira no bolso, chave na mão, relógio no pulso. Boa. Sorriso, vira para um lado, vira para o outro. Puxa o casaco para baixo. Perfeito.


Abre a porta, despedida. Fecha. Ganha a rua. Ponto, aceno, catraca. Sem assento. Fazer o quê? Balança, balança, pára. Aperto, mais aperto. Ok. Balança, chacoalha, quase cai, pára. Alívio, cadeira. Senta, janela. Casas, prédios, balança, balançam, letreiros, quase caem. Pára. Passagem estreita. Escada, calçada, passos apressados. Anda, acelera, diminui. Mais passos, ladeira, descida, cruzamento. Tá quase. Celular. Oi, tudo bem? Chegando. Pressa, vontade, saudade, mais pressa. Ajeita o cabelo, pente, sorriso, ok. Puxa o casaco, espana a gola, olha o relógio. Ótimo. Chega. Campainha. Estica o braço... e só então ele percebe que esqueceu o desodorante.


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sexta-feira, maio 21, 2010


Sempre


Acordou sabendo que aquele seria o último dia. Acordou cedo. Mas não foi trabalhar. Tomou um banho gostoso, daqueles bem demorados. Lavou o cabelo umas três vezes. Ensaboou cada centímetro ao menos duas. Fez a barba, escovou os dentes e penteou-se de uma forma despenteada. Vestiu seu jeans preferido, uma camiseta branca e o all star. Saiu de casa sorrindo. Desceu as escadas correndo. Eram quase dez e havia muito a fazer.


Parou na padaria e pediu pão na chapa com requeijão. Para beber, suco. De laranja. Deixou o carro na garagem. Escolheu o metrô. Conseguiu se sentar. Sorte. Notou uma senhora chorando no banco em frente. Seus olhares cruzaram-se, ele apenas sorriu. Por um segundo ela parou de chorar. Desceu na luz.


Visitou a Pinacoteca pela primeira vez; justo no último dia. Apreciou o máximo que pode. Tanto quanto o churrasco grego que almoçou depois. Tinha medo. Hoje não faria mal. Fez a digestão caminhando no parque. Observou cada folha, cada pétala. Pegou o celular e ligou para alguns amigos, sem falar em despedida. Ao contrário: o tom era de recomeço.


Foi ao cinema cometer a loucura que sempre quis cometer: ir de sala em sala, vendo trechos de todos os filmes em cartaz. Reservou o melhor restaurante para jantar. Passou no crédito. Passou na casa dos pais. Levou torta de limão e pegou os dois de surpresa; de supetão. Comeram, riram, reviram seus álbuns de infância. Viram que o tempo passou.


Voltou para casa em cima da hora. Colocou a velha roupa amassada (melhor que qualquer pijama) e dormiu. Teve sonhos lindos, coloridos, completos. Mas sabia que dessa vez não se lembraria de nenhum. Como sempre. Como no último dia.



quarta-feira, abril 14, 2010


Às vezes


Às vezes sinto vontade de escrever, falar, mas nem sei por onde começar. Não é por falta de idéia. Curiosamente, penso que acontece o contrário. São tantas que nenhuma fixa, nenhuma fica o suficiente para ganhar forma. Sinto-me perdido numa grande nuvem, bem alta. A sensação não é ruim. Estranhamente confortável, mas dói pensar que talvez não haja fim. Talvez. Não adianta gritar, ou caminhar, estou sozinho nesse acolchoado mar de nuvem.


Às vezes olho para baixo e vejo tanta coisa boa. Muitas possibilidades. Pessoas, acontecimentos, vidas inteiras rolando e eu aqui, assistindo. Tem um cara parecido comigo ali embaixo, vivendo em meu lugar. Pensam que sou eu, digo, as pessoas que estão com ele pensam que sou eu. Falam com ele, riem com ele, dançam com ele. E ele lá, aproveitando (tomara) tudo isso em meu lugar.


Às vezes acho que ele me escuta. E sendo verdade, seria o único. Quando grito ou falo certas coisas, ele olha para cá, como se escutasse e me procurasse, sem nunca me encontrar. Seus olhos até cruzam o caminho dos meus, mas muito rapidamente, nunca fixam, nunca ficam. Logo, ele retoma seus passos por lá, e eu continuo andando nas nuvens. Incompletos, imaginando a chance única de sermos um.


Às vezes sonho que sou eu lá embaixo, vivo alguns daqueles momentos; os bons e os ruins. Não me vêem como um estranho, sou eu mesmo. O que eu acostumei a ver de cima, aparece na minha frente, falam comigo, riem comigo, dançam comigo. Mais cedo ou mais tarde, acordo nas nuvens. E sempre que “volto”, noto que o céu está mudado, e mudando, inquieto. Numa progressão de cinzas, a concentração de nuvens parece não poder parar. Tantas idéias, todo pensamento, tudo já é nada e tudo junto; tempestade. Daquelas de abrir o céu... estão sentindo aí embaixo?

... parece que começou a chuviscar.


quarta-feira, abril 07, 2010


Terminal


Ponto de ônibus, dez da noite. Uma senhora de olhos baixos e óculos meia-lua olha para a rua. Parece até não perceber se sua condução já passou ou não. Olha para rua, pelo menos é nessa direção que seus olhos apontam. Mas não, ela não olha nada. Ou melhor, por dentro, vê seu marido esperando impaciente o jantar que ainda nem começou a ser feito. Ao mesmo tempo, enquanto formas de carro passam à sua frente, vê seus filhos brincando. O mais velho ainda não subiu. Está lá com os amigos, conferindo de tempos em tempos se sua mãe chegou. Em cima, a dois cômodos do pai, a menina caçula imagina seu futuro de princesa com uma boneca velha nas mãos. A senhora de olhos tristes não parece apressada. Ela simplesmente espera, sem esperar por nada.


Tem também uma menina bonita. No vigor da juventude. A cada sinal de movimento, pensa em seu ônibus, e pensa em seu prédio, e pensa em seu quarto e pensa em estar deitada ouvindo coisas bonitas do namorado distante. De tempos em tempos, pensa no que ele pode estar fazendo. Sente ciúmes, imaginários, que logo se transformam em sorrisos. Reais. Tão reais que fecha a cara, com medo que algum desconhecido a veja assim, sorrindo.


Do lado, um senhor perdido. Perdido mesmo. Chegou há pouco do interior. Procura por seu irmão, mas não sabe nem por onde começar. Tem vergonha de perguntar, receio de não encontrar. Duas linhas mal escritas o acompanham num pedaço rasgado de papel. E cinquenta e tantos anos numa ponta ansiosa de esperança. Olha para lá, olha para cá. Olha tudo e nada vê.


Encostado num poste sem luz, há um cara estranho. Com fones de ouvido e olhos puxados. Acende um cigarro, muda de posição, espreita o melhor lugar para estar quando o ônibus chegar. Observa aos outros, cantarola o que quer que esteja ouvindo. Inquieto, fixa seus olhos numa menina que sorri do nada. Disfarça rápido e sente-se invisível.


A senhora de óculos meia lua nem nota um homem com papel na mão que se aproxima. Afinal, o ônibus chegou e ela logo entra na fila. Ele a segue. Dentro, ela percebe que não há mais lugares vagos. Pensa em chamar a atenção de um jovem de fones de ouvido que acaba de sentar, mas uma garota bonita lhe oferece um lugar.


E o ônibus vai, chacoalhando por aí. Um senhor lê e relê um mesmo pedaço de papel, o jovem sentado observa uma garota de pé que sorri para a janela, a senhora que acaba de sentar decide fazer macarrão quando chegar, e assim, o ônibus vai. Ao som desafinado do cobrador, o motorista acompanha a tudo pelo retrovisor. Mas não vê nada, nada além do mesmo caminho de sempre.












segunda-feira, abril 05, 2010



Um, dois, três


Preciso salvar o planeta. Pelo menos é o que diz o e-mail que recebi uns tempos atrás às 11:11 da noite. Sem remetente, subject ou qualquer ligação comigo. Tudo que continha era um relógio de muitos dígitos e a palavra “faltam” acima deles. Fiz as contas, não sou de matemática, mas a calculadora não erra: aquele relógio chegaria a zero no dia trinta e um de Dezembro de dois mil e doze.

Passei a noite em claro após o resultado. Esperei novas mensagens e só recebi ofertas de e-commerce e um e-mail da minha irmã. Curioso. Não falava com ela há anos. Fechei a caixa de entrada e iniciei as buscas. Foram semanas estudando toda sorte de profecias apocalípticas. Maias, Nostradamus, até conspirações do Google envolvendo Bill Gates numa rede cyberdiabólica.

Gastei todas as minhas reservas para viajar à Washington. Só desiste de entrar na Casa Branca quando por pouco não entrei na viatura. (Ah! O blog do Obama deve ser fake: ele não me respondeu). Encontrei na web muitos como eu, pessoas com a mesma missão, destemidos no mesmo objetivo. Marcamos um encontro, infelizmente só eu apareci. Perdi as esperanças nos norte-americanos, afinal, eles são alguns dos principais culpados do fim iminente.

Voltei ontem para o Brasil. O aeroporto estava um caos, todos os monitores mostravam cenas de terremotos, furacões, ataques terroristas; o mundo do avesso. Enquanto isso, aqui, no país, as tragédias eram em menor escalar e maior frequência: traficantes versus polícia, chacinas, enchentes, crianças nadando no lixo, sequestros-relâmpago e tempestades que não pareciam ter fim. O de sempre. Troquei o taxi por um ônibus. Há tanto tempo longe, estava mais do que na hora de voltar.

Sentindo-me um estranho, pisei o solo onde nasci; interior do Paraná. Aqui, aparentemente, eles sentirão o fim do mundo de repente, sem aviso prévio. (Melhor assim, melhor remédio). Decidi caminhar. Revi(vi) minha infância pelas praças e coretos (iguaizinhos como lembrava, talvez um pouco menores – questão de perspectiva), chorei no túmulo de meus pais, saboreei o mesmo sorvete de pistache, eis que finalmente fui até a cabine telefônica. Marquei um jantar com minha irmã.

Parece que irei conhecer meus sobrinhos: Pedro e André. Eles não sabem, mas hoje é dia trinta de Dezembro e me encontro deitado num velho colchão de pousada. Não sabem pois são novos e sua realidade é muito mais pura e simples. Devem saber o que é uma pousada e até achar graça da palavra tsunami. Mas o que eles não sabem, o Pedro e o André – nem mesmo a mãe deles, que são eles três que vão salvar o mundo. O meu.


terça-feira, março 23, 2010



Podia se chamar vida




Tem dias em que tudo acontece junto.
Tem dias em que nada acontece.


Tem dias em que a gente se sente mal.
Tem dias em que a gente se sente.


Tem dias em que dá saudade.
Tem dias em que dá vontade.


Tem dias em que nada pode.
Tem dias em que tudo dá.


Tem dias em que o tempo voa.
Tem dias em que o tempo fecha.


Tem dias em que o sono leva.
Tem dias em que o pique vem.


Tem dias em que se come muito.
Tem dias em que nada desce.


Tem dias em que se conhece o novo.
Tem dias em que se repete o velho.


Tem dias em que é preciso dar um passo pra trás.
Tem dias em que é lindo dar três pra frente.


domingo, fevereiro 07, 2010



Era uma vez o que é



Era uma vez um menino desengonçado. Que por pouco não chega ao primeiro aniversário; sobreviveu. Por vontade ou destino. (Aliás, que diferença faz?) Cresceu, crescia. E com ele, seus sonhos. Acordava de madrugada e dizia aos seus pais: “meu joelho tá doendo”. Ouvia sempre a mesma resposta: “sinal de que você está crescendo”. Voltava a dormir feliz, com dor, mas feliz. Sonhava grande, enorme, ganhando o mundo com seu sorriso gigante e abraço de elefante.


Era uma vez um menino engraçado. Um garoto que ria, pegava errado no lápis, mas quase sempre acertava na palavra. Era quietinho e muito observador. Até os quinze era platéia solo de si mesmo. Ela adorava e ele se sentia à vontade. Disse que acertava na palavra? Mas só para quem ouvia. E ria.


Era uma vez um menino calado. Era, porque deixou de ser. Deixou para trás o silêncio e conheceu o amor. Ou melhor: reconheceu. O amor que não se explica, aquele que apenas sente. O amor em si. Mesmo, que surge de repente. Percebeu como era fácil e saboroso e podia amar o mundo inteiro. Aquele que se multiplica ao ser dividido, sabe?


Era uma vez um menino apaixonado. Metido a aventureiro, um menino grande no tamanho e coração. Daqueles que nunca esquecem a criança que é. Que pega errado no lápis, observador e arteiro, e mesmo chegando aos trinta, acorda toda madrugada com dor no joelho.



quarta-feira, fevereiro 03, 2010



Dois mil e dez



Começa com dois, e dois é bom. Acaba com dez, nota máxima. No meio, mil; preciso explicar? O ano novo já não é novidade, mas vem com tudo. Fora o óbvio (Copa, eleições e sonoridade), chegou chegando. Estamos no segundo mês e não houve um dia de Janeiro que não tenha visto a chuva. E nem a chuva viu Janeiro; eu, pelo menos, não vi. E o Carnaval vem aí... se continuar assim, você, que só agora parou aqui, já deve ter visto a mangueira na Sapucaí. Isquindô, isquindô. Rimando e rodando.


2010 promete. Mas promete tanto que é certeza que não vai cumprir tudo. Tudo bem. Fiz minhas resoluções no primeiro dia e vou acreditar nelas até o último. Para ser exato, nem lembro totalmente quais são (estão em boas mãos), mas sei do que se tratam. Sabe aquela vontade de abraçar o mundo? Para mim, esta vontade nunca foi tão literal. Quero abraçá-lo com carinho. Pedir desculpas pelos meus conterrâneos e fazer cafuné no pólo norte, enquanto cochicho no ouvido da Oceania que 31 de dezembro de 2012 será só mais um dia. Desculpem-me profetas, eu não acredito em vocês.


O que eu acredito é que todo dia é uma chance de começar de novo. Não é só na manhã do primeiro de Janeiro que o sol nasce (aliás, dessa vez a gente sequer o viu atrás das nuvens), mas em todas as manhãs, tardes e noites. Para o velho e para o novo, sempre sobra tempo para começar de novo. Se a segunda-feira é desculpa para dietas e o réveillon para mudanças, que assim seja. Toda desculpa é motivo justo quando a causa é nobre e o objetivo melhor ainda.


Vamos. Vamos todos fugir da rotina, fazer algo que assuste todo dia, dar risada de verdade, beijar mais, ouvir mais, chorar quando der vontade, e que a tristeza tome uma lavada da felicidade. Ano novo: pode entrar que a casa é sua. E agora, agora é com você.



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quarta-feira, janeiro 20, 2010



Olhos bem fechados…


Conferiu no mostrador quanto tempo de ar ainda restava em sua máscara. Quarenta e cinco minutos seriam suficientes. Saiu apressado, ganhou a rua adjacente e logo entrava no velho parque vizinho. Incrível como as árvores pareciam reais – como nos filmes. Foi ao canto escondido de sempre e, em poucos minutos, ela chegava. No abraço apertado podiam sentir o coração um do outro. Tocavam-se e roçavam-se freneticamente. O desejo beirava o incontrolável. Quando ameaçou arrancar a máscara, ela o deteve. Pediu que se acalmasse, pediu desculpas e sumiu no meio da paisagem artificial (com vontade verdadeira de ficar).


Ele saiu pouco depois. Enquanto caminhava, lembrou-se de um velho que engraxava sapatos a duas esquinas do parque. Restavam quase vinte minutos e somente uma pergunta para fazer àquele homem. Em cinco, o avistou. Dois minutos depois, puxava o assunto. Perguntou se, no passado, teria este senhor experimentado aquilo que ele tanto almejava. Queria saber como era. Se era como nos filmes. Se o mundo girava e tudo ao redor desaparecia. Perguntava empolgado, visualizava a cena. Quase sentia acontecer. O velho apenas sorriu e o lembrou: neste ar de hoje, ninguém passa de um minuto com vida.


Ao chegar em casa, correu para o carregador. Já aliviado, tentou ler um livro, mas não conseguiu se concentrar. Aquela imagem, no parque, não lhe saía da cabeça, e colorida com as tintas da imaginação, virava uma tela linda; de Chagall. Adormeceu e sonhou com ela. Sonhou com o seu desejo, um sonho gostoso e demorado. Quase perdeu o tempo da máquina, mas por sorte, o alerta de emergência funcionou, despertando-o com vida. Resolveu escrever para ela. O email marcava o encontro e a intenção por trás do mesmo. Ela tinha todo o direito de recusar; bastava não dar o ar da graça.


No dia seguinte, com o peito cheio de ansiedade, ele estava lá, mal conseguindo manter-se em pé. O tempo ia correndo, mas ele aguardava, imóvel. Alguma coisa lhe dizia que ela iria aparecer. Dito e feito. Ofuscada pelo intenso brilho do sol, uma silhueta aproximava-se dele. Já bem perto, olharam-se. Olhos nos olhos. Sorriram. Sem porquê. Sorriram muito. Não foi necessário dizer uma palavra sequer, tudo ou nada, de nada importava. Não ali, não naquela hora. Fizeram somente o que tinham de fazer. O beijo durou quase três minutos.




segunda-feira, dezembro 14, 2009



Gostei


Após vários finais de semana e noites de treino, suor, alguns pequenos desentendimentos, confusões, risadas, e muita coisa boa, ouvi o mais sincero dos comentários: eu gostei bastante. Vindo de uma criança de três anos, não há frase melhor. E sabe de uma coisa? Concordo plenamente.


Gostei do primeiro dia de montagem e do processo de escolha do texto, gostei do novo diretor, gostei dos personagens e do desafio do meu especificamente, gostei dos figurinos e dos primeiros ensaios, gostei das maquiagens e das meninas vestidas de homem, gostei de fazer ao ar livre e de aprender uma nova dança, gostei de brincar com o corpo e falar com sotaque, gostei de ser emburrado e muito mais velho, gostei que não choveu forte, gostei do bigode e da bota, gostei da lua e de ser palhaço no meio da rua, gostei de todos que foram ver, gostei das surpresas, gostei da coincidência do meu pai ter estado ali quando criança, gostei da presença do pequeno curtindo a peça, gostei das risadas nas horas inesperadas e nas esperadas também, gostei do beijo de antes e de cada abraço que vinha depois, gostei das duas porquinhas, gostei de falar com a platéia, gostei que minha mãe conseguiu chegar, gostei da música que tocava no fim e daquela que a gente cantava no começo, gostei do arrepio no aquecimento e o que esquentou as bochechas no aplauso final, gostei do que fiz, gostei do que fizeram, gostei de ver. É, João, eu também. Eu também gostei bastante.


quinta-feira, dezembro 03, 2009



A Farsa


Primeiro foi o bigode. Ele dizia que o papel pedia um bigodinho. Achei esquisito porque ele nunca usou bigode, mas até que gostei do resultado. Ficou engraçado e um pouco charmoso – a promessa era raspá-lo tão logo acabasse a temporada. Bem, depois veio o sotaque. Precisava soar natural; orgânico, segundo ele. Para tal, passou a falar daquele jeito até embaixo do chuveiro. Ninguém em casa entendia direito. Nem o linguajar nem o que acontecia com aquele homem. Do jeito de falar para o jeito de andar foi um pulo. Literalmente. Além dos passos esquisitos, ele pulava de uma hora para outra, de repente, assustando a si mesmo e a todos que estivessem perto. Era necessário, para não acomodar o corpo, dizia, para estar sempre atento e desconfiado. Foi então que eu comecei a desconfiar.


Um belo dia, abro seu armário e só vejo roupas velhas, usadas, gastas. Parece que trocou tudo que tinha numa entidade por roupas antigas. Quando o questionei sobre o assunto, respondeu com dureza “Diacho, cê nunca recramô das minha vestimenta”. Achei melhor não insistir. Assim como quando surgiu um baú no meio da sala, trancado com cadeado. Ele passava horas sentado no sofá, falando sozinho, sempre de olho no baú de madeira. Penso que logo cansou de falar sozinho, pois arranjou um relicário com um santo dentro; seu interlocutor naquelas tardes malucas. Eu precisava saber o que tinha dentro daquele baú, mas ele não o deixava a sós nem por um minuto. Até o chapéu surrado, ele às vezes tirava. Já os olhos do baú, nunca.


Resolvi descobrir o segredo de madrugada, mas quando acordei, ele não estava na cama. Desci as escadas, fazendo o maior silêncio possível e fiquei à espreita, espiando por baixo do corrimão. A cena que vi me atormenta em pensamento: o baú aberto, o relicário iluminado com lampadinhas, e ele ali, sentado no chão, fazendo sons estranhos, com um troço enorme no colo. Demorei para distinguir o que era. Mas hoje a imagem não me sai da cabeça. Uma porca feita de barro, feia, gorda, esquisita, e com um olhar assustador. Voltei para cama assustada e não preguei os olhos. Nas noites que se seguiram, ele sempre saía escondido. Eu não precisava ir atrás para saber o que estava fazendo.


Não sei mais o que fazer. Ele só trata bem ao santo, engordou uns vinte quilos, não sai de perto do baú, não paga mais nenhuma conta, toma banho raramente, é mal criado com todo mundo e ai de quem se aproximar do seu baú com a porca dentro. Já não o reconheço mais com aquela calça pula-brejo e bota sem meia. Moro com um ser bizarro, que parece saído do imaginário coletivo. Mas é perfeito. Perfeito em suas inúmeras imperfeições, engraçado de tão rabugento. É a melhor criação de personagem da história da humanidade. Doutor, me ajude! A peça estréia amanhã e não há nada nesse mundo que o faça querer sair de casa.



segunda-feira, novembro 30, 2009



Escuta


Falei dos cheiros e as memórias que eles trazem, mas agora prefiro calar e aproveitar outro jeito saboroso de lembrar: ouvindo. Definitivamente, as músicas marcam. Marcam época, pessoas, lugares. É impressionante o dom que determinadas canções têm para nos tocar em pontos específicos. E não só; às vezes nos trazem sensações exatas, mesmo quando não relacionadas a uma coisa única. Por exemplo: o prazer de dirigir na estrada, cento e dez, cento e vinte, cento e sessenta, ou ainda, quando nos ajudam a dormir antes que a cuca venha pegar. Em casos assim, geralmente, a gente não sabe nem quem canta ou de qual viagem estamos lembrando. Mas a gente ouve e sente. Ou seria o contrário?


O tempo muda tudo até que nada do que foi seja de novo do jeito que já foi um dia. A metamorfose ambulante que somos, inclui, logicamente, nosso gosto musical. Bandas que adorávamos, de repente odiamos e chegamos a negar nosso passado, escondendo que um dia ouvíamos aquilo. Mas quando me refiro àquelas músicas únicas, isso não acontece. Mesmo odiando um cantor, certa canção pode trazer lembranças especificamente boas da época em que ele vivia no repeat do disc-man. E isso dura para sempre. Em cada momento da vida há uma música favorita. O para sempre, sempre acaba. Sim. As músicas não.

E músicas que lembram pessoas? Ah, esse tópico merece um parágrafo. Praticamente todos que de fato importam na nossa vida viram música na memória. Como trilha sonora da melhor qualidade, com personagens pra lá de marcantes. Amigos pra se guardar, amores possíveis, futuros amantes quiçá, família, papai, mamãe, titia. Memória automática: tocou, ligou; ligou, tocou. No rádio, na festa, na fazenda, até mesmo baixinho no alto falante do restaurante. Muitas vezes, músicas dão saudade e saudade até que é bom. Principalmente esta que pega carona nas ondas sonoras, revive o passado, e mostra que ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está. Sereno, lindo. Igualzinho à música favorita que ainda não tocou.


segunda-feira, novembro 23, 2009




Rê começo



Eles se conheceram sem querer, como é de praxe conhecer.

Conversaram sem querer, mas não pararam de se entender.

Interessaram-se sem querer, num momento em que não era para ser.

Voltaram a se ver, novamente sem querer, mas agora pra valer.

Foi aí que os lábios se encontraram por querer, no cinema em que não foram para ver.

Não se desgrudavam mais, nem por querer, exatamente como tinha de ser.

Viajaram cheios de vontade de querer. De querer se conhecer.

Namoravam sem querer, até que um dia foram perceber: pagaram pra ver.

Transformaram-se em pais, sem querer, se é que se pode dizer, mas que só podia ser.

O amor aumentava junto do querer, junto do pequeno que só sabe viver.

Decidiram ficar juntos, para valer, totalmente por querer.

Comemoraram sua felicidade por querer dividir. Multiplicando-a para quem quisesse ouvir.

Nova página estão prestes a ver. Sem querer saber como vai ser.

Por querer ou sem querer, não há nada mais que se possa fazer.




(para o irmão que sempre esteve aqui e para a irmã que nunca vai deixar de estar)




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quinta-feira, novembro 12, 2009




Sem querer


Tenho insônia. Já perdi a conta de quantas noites passei assim. Eu, comigo mesmo, rodeado, às vezes perdido de mim. Passo o tempo, no melhor sentido passatempo da palavra. Invento idéias, repito coisas que esqueci, e ao procurar ilusória companhia, encontro contentamento verdadeiro – desses que ficam mesmo quando acabam. Tranquilo, ansioso, elétrico e preguiçoso. Não é que eu não tenho sono; apenas não dá para dormir.


Sou dois, três, na minha cabeça: mil. O que me espera, espero não saber. E faço questão que seja assim. Se eu desconheço o que será e quem serei, de nada adiantam as demais perguntas fundamentais. Quando? O quando é relativo e chega quando quer. (Acaba quando puder). Onde é sempre lá, e o porquê é porque sim. Aqui e porque não, são inércia e desperdício; respectivamente. O tempo passa, sem dó. Leva com ele as respostas, mas deixa as perguntas. De que lado você quer ficar?


Quero aprender conhecendo, reconhecer aprendendo. A teoria e a prática, a forma e o conteúdo, inseparáveis como certas coisas. Estas prosas com jeitão de poesia são, de tudo que falei até agora, a maior prova. Só experimentando para saber. É improvável haver no mundo exemplos repetidos. Se nem um segundo é igual ao primeiro, no máximo, dois momentos se assemelham. Sendo assim, são todos únicos. Somos todos. Bobagem pensar de outro modo e por isso agir de forma igual. ‘Experimento’ não soa tão importante à toa. Concluo, por ora, antes que o dia desfaça a noite. Minha insônia não é falta de sono, é vontade de sobra.



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segunda-feira, novembro 09, 2009



Ar, doce ar.


Não é a toa que os cheiros são as lembranças mais fortes. Mais que imagens, sons etc. É como se a memória olfativa estivesse no coração de milhares de ligações nervosas. Basta acionar aquele mínimo ponto e um zilhão de coisas aparecem, de repente, na sua frente. Épocas, roupas, lugares, pessoas, e o mais importante: sensações. Experimente cheirar um CK One e feche os olhos. Imediatamente você estará de Levis 501 e new balance 1600, pronto pra matinê.


Outro dia me deparei com um action figure super moderno recém-saído da caixa, e logo aquele cheirinho de plástico novo fez renascer em mim toda a minha infância, transformando-o num simples bonequinho. Lembrei-me de tardes inteiras montando Lego, falando sozinho e imaginando mundos gigantescos que cabiam e sobravam na minha cama de solteiro. Senti a alegria descompromissada de quem tem como maior responsabilidade terminar a lição de casa. Se deu saudade? Ô.


Perfumes, sabonetes, cremes, xampus, todos podem estar facilmente associados a pessoas. É comum aquele perfume te lembrar alguém. Você pode até não identificar exatamente quem, mas a certeza de que você já sentiu aroma igual é impressionante. Seria como um Déjà vu de cheiros. E nesse caso, não deixa dúvida. Pior (ou melhor) do que os cosméticos que as pessoas usam, só mesmo os seus cheiros originais. Os tais feromônios, cada qual com seu cada qual. Deve ser por isso que o mesmo perfume possui uma mínima variação quando em outro corpo. Indelével variação. Você pode se esquecer dos traços daquela pessoa – o que mais cedo ou mais tarde, acontece – mas deixa só você sentir de novo aquele cheirinho que ficava na roupa amarrotada pra ver o que acontece.


Cheiro de tinta me lembra reforma, de incenso, meu pai, de gasolina, viagem, de carro novo, comemoração, de cigarro, balada, sabonete, banho e por aí vai. Cheiros acabam lembrando outros cheiros, e o emaranhado de lembranças emotivas, coloridas, fantásticas, envolve todos os cinco sentidos. Aliás, acho que os ultrapassa. Se existem o sexto ou sétimo, provavelmente têm a ver com essa coisa que invade a nossa mente sem pedir licença, mistura idéias sem cerimônia e nos faz sentir tanto e tão completamente que a gente nem entende o que de fato sente. Lembra? Tem tudo a ver com cheiros.

sexta-feira, outubro 30, 2009

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Certas coisas


Deixou o carro no valet e saiu apressado, quase esquecendo de pegar o tíquete: “Ah, sim, obrigado.”. Entrando no local, passeou as mesas com os olhos, ansioso, e não encontrou o que procurava. “Estaria ela tão diferente assim?...” aí notou o mezanino e a escada que levava a ele. Venceu o último degrau, virou à direita e pode ver todo o primeiro corredor do andar de cima. Bem ao fundo, numa mesa de dois lugares, estava ela. Folheava o cardápio com delicadeza e dava rápidas olhadas para o andar de baixo. A lâmpada dicróica lhe dava um ar de conto de fadas. “Sim, ela não mudou nada.” Lentamente foi caminhando pelo corredor, passando mesa por mesa. Ela não demorou a notar o movimento e virou os olhos em sua direção. Ambos sorriram, abraçaram-se e sentaram-se:

- Pensei que não fosse te reconhecer.
- Você está diferente, isso sim. Eu tenho a mesma cara desde os cinco anos de idade. Lembra?
- Quanto te conheci, você tinha vinte.
- Não, tô falando da foto que...
- ... foto?
- Esquece, deixa.

Odiava situações constrangedoras. “De que foto ela tá falando?”. Decidiu compensar a memória falha de alguma forma:

- Garçom, por favor. Capiroska de lichia para a dama e um chope para mim.
- Não, não. Só uma tônica, com limão espremido no copo, por favor. – Assim que o garçom se afastou, - Parei de beber. Não vejo mais graça nisso.
- Ah, tudo bem.
- Mas me fala de você. O que tem feito?
- O de sempre. Trabalhando no escritório, jogando aquela bolinha quando dá. E você, continua no ramo de depilação?
- Mais ou menos. Agora sou designer de sobrancelhas.

Quase respondeu um sonoro “ãnh?!”, mas conteve-se a tempo: - Que legal. Parabéns.
- Obrigada. Tem sido difícil, mas estou me saindo bem.
- Tenho certeza disso.
- Tem certeza?
- Sim. Que você se sairia bem...
- Gozado, porque você nunca acreditou que eu poderia ser boa nisso.

Quase respondeu um sonoro “quê?!”, mas conteve-se a tempo: - Imagina... Bem, vamos pedir aquela picanha no réchaud. Uma boa né?
- Pode pedir. Mas eu vou de salada de palmito. Vegetariana.
- Entendo...
- E o coração, como anda?
- Tranquilo. O seu?
- Idem.
- Vamos lá na calçada fumar um cigarrinho? Ou você parou com cigarro?
- Ahã. Mas pode ir se você quiser. Eu te acompanho.

Foram. Na calçada, conversaram mais um pouco, deram umas risadas, voltaram para a mesa. Comeram a picanha e o palmito, pediram a conta. Na saída, esperando os carros, ficaram em silêncio. O dela chegou primeiro, ele abriu gentilmente a porta. Ela se sentou e olhou para fora. Ele, apoiado na janela. Olharam-se por trinta segundos que pareceram horas. Até o carro dele chegar... Minutos depois, voltando para casa, teve certeza: “É, ela não mudou nada”.



quinta-feira, outubro 15, 2009

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Sim

Não tinha jeito, não tinha casa, não tinha apego, não tinha namorada, não tinha problema, não tinha relógio, não tinha ciúmes, não tinha dor, não tinha gripe, não tinha alívio, não tinha afago, não tinha cama, não tinha calor, não tinha frio, não tinha doce, não tinha amargo, não tinha abraço, não tinha briga, não tinha bronca, não tinha grana, não tinha barba, não tinha cheiro, não tinha medo, não tinha pressa, não tinha dívida, não tinha credo, não tinha esperança, não tinha dedos, não tinha preço, não tinha sombra, não tinha dança, não tinha voz, não tinha paz, não tinha fome, não tinha porquê, não tinha solidão, não tinha remédio, não tinha chão, não tinha cura, não tinha bolo, não tinha bala, não tinha via, não tinha vaga, não tinha nada. E tinha tudo.



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quarta-feira, setembro 30, 2009

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Cadê


Meus óculos? Eu jurava que estavam aqui dentro. Foi aqui que eu deixei. Ou no carro, isso: no carro. Vai que eu esqueci no carro? Mas eu tava de carona. Aliás, será que eu estava mesmo com os óculos ontem? Bem, sol eu acho que fez... Se eu fui de carona ou não, sei lá. (Que droga de memória!). O que importa é conferir isso logo. Porcaria. Não está aqui. Se não está aqui, nem na mochila, o que eu fiz com meus óculos?!


- Você viu uns óculos escuros por aí?
- Como são?
- Meio retrô. Lente grande, marrom...
- Hm. Eu acho que já te vi com esses óculos. Combina bastante.
- Também acho.
- Como você arrumou eles?
- Cara, sabe que eu não sei direito. Foi um presente, do nada.
- Vacilou então. Porque se você soubesse, podia arrumar outro.
- Quem é você?
- E eu que sei?
- Vou achar esses óculos.
- Boa sorte, não vi nada por aqui não.

Lá vou eu de novo. Bem, paciência. Lembre-se de cada segundo dos últimos momentos com ele, é simples assim. Nossa, não consigo. Simplesmente eu não me lembro. O que é aquilo ali na janela? Não. Não são eles, são parecidos, mas não são eles.


Procuro em todos os lugares possíveis e impossíveis. Lugares que me lembram coisas e outros que não me lembram nada. Volto onde estava, corro pra frente, idem. Às vezes, nem procurando estou, e me deparo com lentes que me lembram eles. Experimento. Nada.

Fecho os olhos e estou de óculos, mas dessa vez não são escuros. Estou velho e uma foto antiga aparece em minhas mãos. Reconheço-me ali pelo sorriso, reconheço eles ali. Meus olhos. Mesmo sem vê-los, imagino-os nitidamente na memória inexistente. Estão sem brilho, meio retrô, marrons. Aonde eles foram parar?





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segunda-feira, agosto 24, 2009

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Bibliografia


Sofro de um mal terrível. Que me persegue, mesmo em sonho. Sou escritor ghost writter, e também me arrisco em alguns pseudônimos. Não por ser bom a ponto de me dividir em muitos; ao contrário. Penso que fingindo ser vários, posso crer finalmente que sou um. Sofro. Mas nem sempre foi assim.


Quando descobri que podia viver em casa, e que de casa escrevendo pelos outros, asseguraria meu presente: larguei tudo. Trabalho, carro, vida social. Enfim, a vida tranquila e caseira me trazia sobras em muitos aspectos, principalmente tempo. Ao lado dele, e sem pressa – com o perdão da redundância, terminei meu primeiro livro autoral; de contos. Já ali não assinei meu nome por medo do fracasso. Todavia, foi um sucesso. Público, crítica, eu. Na época, lia e relia aquelas páginas de cabo a rabo, sem enjoar de uma linha sequer. Esse sempre fora meu termômetro: se você consegue ler um texto seu um milhão de vezes, um milhão de pessoas conseguirá ao menos uma vez.


Meu segundo e terceiro livros saíram juntos. A coletânea de pequenos textos fora grande o bastante para dois. Batizei os gêmeos com o mesmo sobrenome (não o meu, claro, nem o do primeiro livro). Ambos surpreenderam, até mais que o primeiro, no começo. Para os outros, faziam todo o sentido. Para mim, não fizeram nenhum – não duraram afinal. Assim como o quarto, quinto, sexto. Sempre um novo eu, o mesmo fracasso de sempre.


Já perdi a conta de quantos livros escrevi ou quantos nomes assinei. Já não sei se tenho esperança de algum deles me salvar. Já lhes disse que sofro de um mal. Agora vocês sabem que mal é esse: sofro o mal que já fez bem, e a cada linha faz mais mal ainda. Arranco as folhas de um arquivo em branco. Na capa, um borrão disforme me transforma. Não consigo apostar em livro algum, se nem mesmo o primeiro, aquele que um dia acreditei que fosse meu, se nem esse eu leio mais.


Gozado como a vida nunca esquece e sempre cobra. Quando eu menos espero, ela aparece. Traz um sorriso amarelo no rosto e a dedicatória promissória nas mãos, tentando minha assinatura outra vez.



“E sem querer nenhum poder

Poder viver feliz pra se morrer em paz” (Vinicius de Moraes)


sexta-feira, julho 24, 2009

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Copo de água

Eu me lembro que você sempre me trazia um copo de água. Lembro do mercúrio que você passava no meu joelho ralado, da porção de arroz sem cebola que você fazia separado e daquela camiseta que só você sabia encontrar no meu armário bagunçado. Lembro de você me buscando na primeira escola e me acompanhando até a padaria pra eu não ir sozinho. Ou então quando eu entrava no chuveiro e gritava que tinha esquecido a toalha, e você colocava na maçaneta pra mim. Eu me lembro de ir à feira com você, escolher as frutas, ajudar com o carrinho, mas na verdade eu ia mesmo por causa do pastel. Lembro que mesmo depois de grande, sem acordar a tempo, acordava com o pastel em cima da mesa da cozinha e você cortando a melancia, minha fruta preferida. Eu me lembro daquela música sertaneja que você cantava, que anos depois descobri que cantava errado, mas pra mim sempre será o jeito certo. Lembro da água na panela que você deixava esquentando que eu nunca soube por que. Do dia em que a gente descobriu o rato que rondava a casa, e de você me contando rindo como tinha “pegado o danado”. Ah, eu me lembro tão bem da sua risada, que às vezes a escuto sozinho no silêncio. Lembro claramente do seu medo dos clarões e relâmpagos: “não segura em nada de metal, Fernando”. Lembro das fofocas da vizinhança, de você, em pé, me chamando para almoçar enquanto eu jogava bola. E quando sentava comigo no sofá pra ver a novela, toda preocupada com a janta. Ou então simplesmente me colocava um cobertor quando cismava que estava frio. Como eu me lembro do dia que você trouxe tubaína pra mim. Lembro até do rótulo; do sabor, nem se fala... Sabe do que mais eu me lembro? Lembro dos nossos abraços, meio tímidos, mas pra lá de especiais. Do presente que eu lhe dei esse último natal e a sua alegria ao ver o que era. Também lembro da tristeza que senti há mais ou menos um mês, e da felicidade há mais ou menos um dia. Mas se tem uma coisa que eu não consigo me lembrar é quando que você se tornou parte essencial de mim. Viu, amanhã, sou eu que vou levar o copo de água pra você. Um beijo, eu te amo. Nunca se esqueça disso.

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