Sexta-feira, Outubro 30, 2009

.


Certas coisas


Deixou o carro no valet e saiu apressado, quase esquecendo de pegar o tíquete: “Ah, sim, obrigado.”. Entrando no local, passeou as mesas com os olhos, ansioso, e não encontrou o que procurava. “Estaria ela tão diferente assim?...” aí notou o mezanino e a escada que levava a ele. Venceu o último degrau, virou à direita e pode ver todo o primeiro corredor do andar de cima. Bem ao fundo, numa mesa de dois lugares, estava ela. Folheava o cardápio com delicadeza e dava rápidas olhadas para o andar de baixo. A lâmpada dicróica lhe dava um ar de conto de fadas. “Sim, ela não mudou nada.” Lentamente foi caminhando pelo corredor, passando mesa por mesa. Ela não demorou a notar o movimento e virou os olhos em sua direção. Ambos sorriram, abraçaram-se e sentaram-se:

- Pensei que não fosse te reconhecer.
- Você está diferente, isso sim. Eu tenho a mesma cara desde os cinco anos de idade. Lembra?
- Quanto te conheci, você tinha vinte.
- Não, tô falando da foto que...
- ... foto?
- Esquece, deixa.

Odiava situações constrangedoras. “De que foto ela tá falando?”. Decidiu compensar a memória falha de alguma forma:

- Garçom, por favor. Capiroska de lichia para a dama e um chope para mim.
- Não, não. Só uma tônica, com limão espremido no copo, por favor. – Assim que o garçom se afastou, - Parei de beber. Não vejo mais graça nisso.
- Ah, tudo bem.
- Mas me fala de você. O que tem feito?
- O de sempre. Trabalhando no escritório, jogando aquela bolinha quando dá. E você, continua no ramo de depilação?
- Mais ou menos. Agora sou designer de sobrancelhas.

Quase respondeu um sonoro “ãnh?!”, mas conteve-se a tempo: - Que legal. Parabéns.
- Obrigada. Tem sido difícil, mas estou me saindo bem.
- Tenho certeza disso.
- Tem certeza?
- Sim. Que você se sairia bem...
- Gozado, porque você nunca acreditou que eu poderia ser boa nisso.

Quase respondeu um sonoro “quê?!”, mas conteve-se a tempo: - Imagina... Bem, vamos pedir aquela picanha no réchaud. Uma boa né?
- Pode pedir. Mas eu vou de salada de palmito. Vegetariana.
- Entendo...
- E o coração, como anda?
- Tranquilo. O seu?
- Idem.
- Vamos lá na calçada fumar um cigarrinho? Ou você parou com cigarro?
- Ahã. Mas pode ir se você quiser. Eu te acompanho.

Foram. Na calçada, conversaram mais um pouco, deram umas risadas, voltaram para a mesa. Comeram a picanha e o palmito, pediram a conta. Na saída, esperando os carros, ficaram em silêncio. O dela chegou primeiro, ele abriu gentilmente a porta. Ela se sentou e olhou para fora. Ele, apoiado na janela. Olharam-se por trinta segundos que pareceram horas. Até o carro dele chegar... Minutos depois, voltando para casa, teve certeza: “É, ela não mudou nada”.



8 comentários:

  1. A essência sempre prevalece,por mais que vc mude.
    Bjoos

    ResponderExcluir
  2. Puta mulher chata, heim! Ta Louco! [2] rs...

    "Certas coisas nunca mudam".

    ResponderExcluir
  3. Tem certas coisas que eu não sei dizer...e digo!

    ResponderExcluir
  4. a verdadeira essência nunca muda.

    ResponderExcluir
  5. Isso me fez lembrar de te lembrar que precisa escrever um texto sobre sua esteticista! ahahahah

    ResponderExcluir